12 de out de 2010

COM O CORAÇÃO NA BOCA

















O ritmo das ruas, o frio na alma, o medo da loucura, esse meu amor que nunca chega...
Não importa, não quero mais. Tenho que driblar a dor. Tento driblar a dor, mas ela me alfineta a alma.
O vai-vem do trânsito. Sofrer não tem hora, lugar? Coração bate forte, bate rápido, bate mais. Sinal dos tempos...
Eu envelheço... Tem importância? Só a depressão crescente.
Tenho que driblar a dor da dor, da falta de amor, vazio na alma, pânico presente, vertigem, vontade de morrer e rápido, vapt vupt. Que seja indolor, que seja breve...
Alguém falou de uma luz? Fim do túnel.
Coração que pulsa, coração que sente. O medo vem na boca, que seca e emudece... Vertigem.
Meu coração batia desenfreado, descompassado, como o ritmo das ruas. A agonia era tal que não me permitia pensar. Também, pra quê? Não dava pra mudar as coisas... A angústia não me dava descanso. Minha cabeça perecia bateria de uma escola de samba. Minha taquicardia absurda fazia meu coração bater na boca. Tudo passa voando ante meus olhos: carros, edifícios, pessoas, tudo. Não consigo me fixar em nada. Também pudera, foi assim que a maioria das pessoas escolheu viver... Que pode fazer um pobre vagabundo como eu?
Falta de ar, muita falta de ar... Tô com medo de de repente acontecer o meu final, logo agora que resolvi encarar tudo de frente, fazer minha vida finalmente ter sentido. Não. Não vou deixar. Sou forte, combativo, lutarei até o último minuto.

Imagem de Lucien Freud

11 de out de 2010

2º TURNO

Caros leitores, gostaríamos de deixar claro que quanto às questões apresentadas no texto a seguir não nos posicionamos de forma fechada, por acreditar que ainda mereçam discussão. Mas não poderíamos deixar de dar voz a um dos grandes colaboradores do nosso blog. Por isso pedimos que externem seja lá o que pensem, pra fazermos um debate bem democrático. Não deixem de dar suas opiniões!

Por Victor Costa Rodrigues, nosso também chef

Talvez tenha sido importante para a democracia brasileira a não-vitória de Dilma/Lula no 1º turno.
Certamente foi fundamental a aposta em Marina, não pelo que ela representava pelo novo, pelo não-manjado, mas, em especial, pela questão ambiental que, agora, ela poderá politicamente fazer valer junto aos programas dos dois candidatos.
Há que considerar, por oportuno, que o lacerdismo, o elitismo, o conservadorismo e por que não dizer, o reacionarismo, estão lado a lado com a paulicéia desvairada e, não por outra razão, o Estadão e a Globo (em que pese seus interesses mais escusos junto ao BNDES) apóiam a privataria, o Serra e o FHC, por tabela.
O getulismo, com todos os seus desvios e erros, as classes mais pobres e carentes estão como nunca com Lula, o que não quer dizer que com Dilma.
A apelação da grande mídia, ao fim do primeiro turno, em favor de uma Marina que via solitária uma onda verde inexistente, não foi a seu favor, mas sim pró-segundo turno, o que levaria , como levou, seu candidato, o eleito da mídia, a uma contenda final.
E o eleito é Serra.
Eleito pelo primeiro poder da república: a chamada grande (sic!) imprensa, os escroques de plantão, os grandes formadores de opinião da zelites do Brasil.
Só não vê quem não quer: Lacerda=Serra, Getulio=Lula.............e a Dilma?
Esta, que seria a grande questão, não importa.
Até mesmo por interesse de um presidente que decidiu por um plebiscito que lhe é amplamente favorável (ou não teria a aprovação popular que tem...).
Ah!!!, dirá um Jabor, plenipotenciário representante da zelites, só os beócios e os nordestinos do bolsa-familia o aprovam!!!!!!
E haverá algo mais elitista que este conceito, pergunto?
Mas, erro ou não de Lula, em querer uma eleição na base do ele ou eu, ninguém sabe de Dilma!
Apenas que ela é quem o presidente quer.
Entre o atraso do lacerdismo/elitista e o novo(?)/populismo/getululismo, eis a questão......
Contudo, ninguém está se importando com isso....... contentam-se com mexericos retrógrados, discussões sobre aborto, homossexualismo e temas absolutamente tolos para quem raciocina, ainda que importantes para a patuléia católico-evangélico-pentecostal, whatever.
Por mim, pessoalmente, me basta saber que a zelites querem algo............ eu quero sempre o anseio da anti-elite, sempre e sempre, ainda que na dúvida.... meu acerto virá ou não pelo NÃO aos que sempre mandaram neste país, serei sempre senzala.

EU E O MAR

Por Lúcia Moreira*
A tábua das marés indica os horários de recuo do mar, que deixa a praia salpicada de lagoas, piscinas efêmeras onde as crianças correm para brincar. Às vezes, a memória recua no tempo e abre esses espaços. Penso na minha infância e na dos meninos, em Fortaleza. Lá recebi o diagnóstico de meu filho. Acabava de ser instalado na minha vida o varejão das urgências vitais, das necessidades incontestáveis, indigestas. De repente, pode acontecer qualquer coisa: um desmaio, uma crise. Vivo em prontidão para a dor, o que me impede de planejar o que não for imediato. Por que não, de repente, algo bom? A vida deixava de ser aquela caretice de desenhar um futuro alucinado e passava a ser uma arquitetura elaborada e construída na realidade.
Voltamos ao Rio para o tratamento. Às 7:45h de hoje, estávamos no portão do Pedro Ernesto, onde um comitê de greve recebia os pacientes. Uma greve! Antigamente, um grevista sozinho era uma assembléia, discurso e apoteose. Mas aqueles grevistas ali eram de outra espécie. Silentes, organizados, graves. Diria mais, diria que aqueles médicos e enfermeiros participam de nossa miserável, infeliz e muitas vezes, abjeta condição humana. Diria que nossas dificuldades são irmãs, sofre-se por não oferecer e não receber o serviço que mitigaria nossa dor comum e real.
Meu filho foi conduzido ao segundo andar para o tratamento. Os que ali estavam, aguardavam o atendimento dormindo ou cabisbaixos, em silêncio. Tinham sorte, tinham entrado. A médica não veio. Não ouvi uma palavra contra a greve, falta de tudo para todos. O hospital era uma solidão brutal de mil pessoas. Quando me apresentei na recepção e disse que meu filho iria ali diariamente, a senhora da limpeza disse: “seu filho deve ser um príncipe, agradeça a Deus”. Abençoou-me.
A experiência de uma doença grave nos dá uma certa consciência entre nós e os totalmente despossuídos, entre nós e os ricos, entre nós e nós mesmos, quando somos apenas o esquecimento dessas coisas que um dia nos arrastam e levam tudo de roldão. É uma lucidez dolorida.
Tristezas não pagam dívidas, dizia a minha avó. Aparentemente, a restauração da ordem começa pela sola dos pés. Andar atrás de trabalho, de novos médicos, de soluções. Mas a sensação lá no peito é a de que andamos na prancha e que precisamos urgentemente negociar com os piratas antes de alcançar o ponto onde a prancha bascula.
Ah, sim, ei de ganhar o mar. Fecho os olhos novamente e mergulho nessa gostosa saudade à beira da Baía de Guanabara, a casa que me principia e que será minha derradeira morada.
Não fomos atendidos. Ao sair do Hospital, nos deparamos com o Comitê. A enfermeira que cuida do meu menino abraçou-o longamente. Não é a greve furiosa da TV. Não foi isso o que eu vi. Pegamos um táxi e o táxi colocou uma distância progressiva entre mim e a lucidez, entre mim e a morte. Anoitece, e o mar recua. Vamos brincar muito essa noite.
Peço desculpas, minha amiga, por esse chatíssimo écrit de lourdeur, cuja única serventia é revelar minha impotência. Hoje eu sei que a vida não ensina nada a ninguém. A experiência vem de restringir nosso contato com a realidade e ampliar a análise desse contato, identificar a ficção ingênita de todas as coisas e amores e filhos e doenças. Encontrar a cura em nós mesmos. Um abraço terno e acolhedor.

* Lúcia Moreira é psicóloga, pesquisadora, amiga do mar, coordenadora-geral do "Mar Brasileiro em Rede"

4 de out de 2010

CANTINHO DOS LIVROS

OS TÍTULOS QUE TRAGO EM MIM

Por Vanessa Balula*

Alguém disse que somos resultado do que vivemos – eu diria, ainda, que somos muito um tanto de tudo o que lemos.
Quando pequena, eu acreditava que deveria ser fiel aos autores – e mais! – aos personagens que sentia terem ‘batido’ de forma diferente dentro de mim. Sabe? Protagonistas daquelas histórias que têm eco em nós.
E assim, lia e relia as mesmas obras zil vezes. Mesmo os novos títulos de autores já meus ‘conhecidos’ me pareciam intrusos. Por um tempo eu lhes tinha certa desconfiança. Em que espaço da minha estante entrariam? Os mais antigos mereciam destaque. Não pelas capas, mas pelas noites que adormecemos juntos. Eu e o ratinho que tinha medo do escuro e sua família vinham em capa dura em uma coleção do bom e velho Círculo do Livro. (agora veja!), acabo de me entregar... lembro de toda a história, cada cena, ilustração-por-ilustração e, sem nenhum registro do nome do autor ou de qualquer Gente Grande Estrangeira que tenha assinado para aquele livro existir. Eu podia jurar que se chamava “Quem tem medo do escuro?” – mas de um tempo que parece que a web não foi capaz de resgatar.)
Tá. Então cresci. Passei a saber os nomes dos autores. Ruth Rocha e seu ‘Reizinho Mandão’ e ‘Marcelo, marmelo, martelo’ com umas ilustrações arredondadas do tipo desenho gordinho de criança com olho arregalado em rascunhos de recreio; Álvaro Ottoni com ‘A história de um sorriso’ e ‘Quando o coração recebe visita’... E então veio Tistu, o menino do dedo verde de Maurice Druon. Foi nesse momento que comecei a me sentir uma leitora pronta. “Eu lia autores estrangeiros, afinal. E sabia quem era quem.” No alto dos meus 10 anos.
Encontrei Lygia Bojunga e ela me tomou com sua ‘Bolsa Amarela’, me fez bem-vinda à ‘Casa da Madrinha’ e me deixou ficar em seu ‘Sofá estampado’. Até hoje fiquei por lá e a Bolsa, bom, a Bolsa, a Raquel, o Galo, o Alfinete de Fralda, o Bolso Bebê, a Guarda-Chuva, a Linha Forte... seguem comigo em páginas, capa antiga e reedição, na estante e na cabeceira.
Cresci mais e vieram todos os grandes – Vinícius, o poetinha, camarada como ele só (!), me lembrando que já nos conhecíamos da Arca de Noé; Jorge Amado, que me apresentou sua doce e anarquista senhora dona do baile, Zélia Gattai; Fernando Pessoa, que me fez começar a entender que o mundo só gira graças ao bom e velho divã – o que seria de nós, cobertos de heterônimos e versões, se não fossem os terapeutas de ontem e hoje? E, todos, em muito boa companhia (!) – com Cecília, João Ubaldo, Marina Colassanti, Raquel de Queiroz, Drummond.
O tempo passou depressa demais – muito mais rápido do que fui capaz de dar conta de tudo o que gostaria de ler. Junto com a pressa uma sede de saber e conhecer e ouvir e saber mais e querer contar e ouvir contar – é da idade, ouvi dizer. Então nos últimos 10, 15 anos tive – quando não esperava (!) – alguns dos encontros mais mobilizadores em mim. Encontros definitivos com Adriana Falcão – tenho uma inveja fúcsia de cada linha! -, Inês Pedrosa, Câmara Cascudo, Afonso Romano, Cortázar, Astrid Lidgren, Jorge Luis Borges, Carmen Posadas, Antônio Cícero... e, ah... Manuel de Barros! Isso só pra citar quem gritou aqui do teclado – deixando tantos outros em silêncio na estante.
E assim a vida – ao menos a minha (!) passa cheia de páginas e capas e histórias e frases e cenas e nomes e rostos e traços que me ocupam, me falam, por vezes me calam, me tomam e fazem bagunça dentro de mim.

*Vanessa Balula, eu e minhas versões: agente literária, jornalista, roteirista, autora, publicitária. Paixão absoluta por papéis, histórias e ilustrações. Pra colorir a vida: Agência da Palavra e giz de cera.

2 de out de 2010

ROGAI POR NÓS

Silvia tinha sofrido um AVC no esplendor de seus 18 anos e agora com quase 40 encontrava-se entrevada, confinada a uma cadeira de rodas com dores intermitentes que fazia questão de suportar sem muitas queixas. E não se deixava abater.
Médium internacional, pessoas vinham de todo o mundo ouvir suas previsões. Cobrava caríssimo por cada Tarô lido, cada previsão acertada. Ironicamente seu baralho não previu o que iria acontecer com ela: através de uma amiga conheceu Diana, que a procurou profissionalmente, mas para Silvia, desde o primeiro momento, foi paixão arrebatadora. Estranhamente, já que nunca tivera experiências homossexuais antes de conhecer essa mulher. Diana ao contrário de Silvia ostentava uma beleza excepcional, sendo a pessoa mais animada e descontraída que eu já tive a oportunidade de ver. Radiosa também era sua personalidade: sempre risonha, amorosa e afetiva com todos.
Isso era o que ela mostrava externamente. Silvia com suas cartas logo descobriu o que aquelas atitudes escondiam. Diana era um poço de angústia, tristeza e carência. Poderíamos chamá-la de P.M.D., tinha fases de enorme euforia, seguidas por longas depressões. De natureza volátil irresponsável, nunca se podia confiar completamente nela. De índole promíscua, eram numerosos seus parceiros sexuais entre mulheres e homens. E sem problemas usava o sexo para conseguir o que desejava.
Silvia estava agora diante do maior desafio de sua vida e carreira. Eu a conhecia de fama e acabei tornando-me sua amiga. Acompanhei meio de perto o casamento das duas. Torcendo por Silvia. Aquela mulher merecia, depois de tudo que sofrera ser feliz. No começo, ambas pareciam ter vivido para enfim se encontrar. Encaixe perfeito. Mão na mão, olhos nos olhos, pura paixão. Fiquei tranqüila e feliz por ela. Até Diana que me fazia temer pelo casal, por conhecer seu caráter, estava aparentemente transformada. Acompanhava a namorada dedicadamente nas situações mais inusitadas, de palestras a festas. Sempre empurrando sua cadeira de rodas, ofertando a todos beleza e alegria.
Fiquei um tempo sem vê-las. Mas sabia através de amigos comuns que tudo continuava às mil maravilhas. Fiquei intrigada com a atitude de Diana. Não por muito tempo. Logo vim saber que as duas já não estavam mais juntas e que Diana agira como de hábito: usara Silvia para se sustentar de forma luxuosa, com seus hábitos exorbitantemente caros aproveitando para fazer um belo “pé de meias” que lhe deixaria tranqüila até o fim da vida se tudo corresse normalmente.
Mais: através de Silvia conheceu um francês e por ele se apaixonara. O final foi sinistro. Eu nunca vira uma pessoa tão aniquilada, perdida e sem rumo como Silvia. Ela fazia questão de esfregar na cara de todos o seu sofrimento. Como se fôssemos responsáveis por isso. Enquanto sabia-se que Diana em Paris exibia sua felicidade e iria lá morar, Silvia era o retrato vivo da paixão desabrida, sem saída, sem perspectiva. Desmoronada.
Mas eu quero sempre estar atenta às voltas que o mundo dá. A vida é fascinante! Um carrossel perfeito. O quem está em cima, de repente vê-se em baixo e vice-versa. Assim foi também aqui.
Pouco depois vim saber por fontes seguras que o tal francês não passava de um grande pilantra também e que o destino afinal, acertava suas contas com Silvia. Ele havia aplicado um golpe em Diana deixando-a só e sem um tostão.
Moral da história: ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão e ainda: você ainda acredita em ética e comportamento moral no mundo que vivemos? A vida nunca foi justa com ninguém. Por que seria com você ou eu?

29 de set de 2010

VEM MAIS NOVIDADE POR AÍ: CANTINHO DOS LIVROS

A agente literária Vanessa Balula inaugurará aqui no blog, em breve, o nosso CANTINHO DOS LIVROS. Contando lá do Sul, onde ela é uma das donas da Agência da Palavra, sua experiência com livros que leu, que está lendo e que virá a lançar. Estamos abrindo as portas para uma super profissional em literatura.  Para saber um pouco mais sobre seu trabalho é só acessar também o blog da Agência www.agenciadapalavra.blogspot.com.

CANTO DOS AMIGOS

VERDADE

Anna Maria Ribeiro

Aqueles que viveram os anos de chumbo certamente se lembrarão do filósofo e jornalista André Gorz. Seus livros eram proibidos por aqui e tê-los em casa constituía um grave delito, passível de prisão. Naquela época, este teórico da Revolução ainda não havia se voltado para ecologia, como fez anos mais tarde. Apenas dois livros haviam sido lançados em português antes do fatídico ano de 1969: “Estratégia operária e neocapitalismo” e “O socialismo difícil”. A partir daí pararam as edições, voltando a ser traduzido e publicado no Brasil somente em 1982. Sempre imagino quem seja o autor quando leio um livro. Não o aspecto físico dele. Mas ele mesmo, lá por dentro. André Gorz se revelara para mim enfarruscado e seco. Qual minha surpresa quando pelas mãos de minha filha, me chega um pequeno livro, o último que escreveu, intitulado “Carta a D.- História de um amor” . Não deve ser o mesmo Gorz, pensei. Um romance! Ele?! Minha filha esclarece: é ele mesmo, numa carta dirigida a sua mulher Dorine, em 2006, já bem velho. E me alerta: dá uma lida no primeiro parágrafo! E foi aí que me vi às voltas com um redemoinho de sensações entre as quais, vergonhosamente, percebi em mim a inveja! Muita inveja. Não resisto à tentação de provocá-la também nos homens e mulheres que me lêem e vou transcrevê-lo:
Você está para fazer oitenta e dois anos. Encolheu seis centímetros, não pesa mais do que quarenta e cinco quilos e continua bela, graciosa e desejável. Já faz cinqüenta e oito anos que vivemos juntos, e eu amo você mais do que nunca. De novo, carrego no fundo do meu peito um vazio devorador que somente o calor do seu corpo contra o meu é capaz de preencher.
Devorei o livro em pouco mais de duas horas e ele perdura há dias dentro de mim provocando sensações por vezes dolorosas. Gorz levou cinqüenta e oito anos para dizer a Dorine a mais importante das verdades: o que ela significou em sua vida. E não foi do significar sentimento que ele falou. Foi do significar da pessoa dela em tudo que fez, em tudo que se tornou, em tudo que viveu. Em cada momento importante e em outros sem qualquer importância ela tornou sua vida plena, apenas sendo. Presença constante, calor de corpo, silêncio risonho, aceitação e até discordância. Ele não teria sido ele sem ela. Que bom que ele pôde dizer, que bom que ela pôde ouvir. Mas raramente é assim. Falamos a verdade mas não A VERDADE. Não percebemos que é preciso falar, falar e falar exaustivamente do que realmente existe entre dois próximos para que se possa entender o seu significado. Não é o “discutir a relação”, imagina! Longe disto. É tão maior: é o ser de cada um para o outro, tornando-se si mesmo só porque existe o outro. Confusa a frase; tão simples e claro seu significado. Perdi meu pai e meu filho no espaço de um ano. Convívio de quarenta e quatro anos com o pai e de vinte e um anos com o filho. E nunca disse a eles o quanto sou e quem sou por causa deles. Por todos os momentos em que existentes me fizeram ser. Falei, sim, e muito, a mim mesma, mas eles já haviam partido. Não disse a eles. Quando Rogério se foi fiquei com seus livros. Ele lia muito e tinha o hábito de marcar com um lápis passagens que chamavam sua atenção, fazendo pequenos comentários. Devorei estas marcas. Era ele me falando, se mostrando. Algumas me surpreenderam. Não devia, não é? Afinal era meu filho e eu o conhecia. Será? Não sei. Conversávamos muito sobre tudo, menos sobre nós. Por que não nos dissemos esta verdade? Privilegiados Gorz e Dorine. Daí a inveja do que não fiz e não poderei mais fazer. Nenhum dos outros livros de Gorz, tão completos, tão esclarecedores, ao contrário do que eu pensava, conseguiu me mostrar o que neste mundo mais se carece. Este tão pequeno, tão singelo, me mostrou: a paz serena e interna pela verdade do que somos pelos outros que fazem a diferença. Se todos a tivessem dentro de si, transbordaria, não é? Como transbordou para Gorz. E que extraordinário efeito este transbordar poderia causar neste mundo tão maluco e violento! O subtítulo “uma história de amor” quem sabe assusta pelo que pode conter de piegas e “dejá vu”. No entanto a verdade de Gorz é inédita. Não há frase, palavra ou significado que não transpire esta verdade de que estou falando e que para mim é nova e revela um caminho que nunca trilhei. Caminho que espero conhecer daqui por diante na companhia de meus filhos e de meus amigos. Vão eles, creio, se surpreender, no início desta caminhada, mas quem sabe, com o tempo, percebam que a paisagem vale a pena. E então, quem sabe, a gente vai ser capaz de se dizer o que importa, antes que este Deus esquisito e misterioso que é o Tempo, nos impeça.
Se esta crônica tiver o poder de fazê-los ler o livro não leiam o posfácio antes de terminar a leitura. Nele se desvenda o final desta história de grande e especial amor. Final que me traz a sensação de estar faltando uma bem aventurança entre as conhecidas: Bem aventurados os que juntos falam da verdade um ao outro porque eles serão especiais aos olhos dos homens.

28 de set de 2010

ZEZÉ MOTTA VEM AÍ!!!

A atriz e cantora Zézé Motta é antes de tudo Maria José Motta de Oliveira, a militante negra, uma das fundadoras e presidente de honra do CIDAN - Centro Brasileiro de Informações e Documentação do Artista Negro, diretora social da SOCINPRO - Sociedade Brasileira de Administração e Proteção de Direitos Intelectuais e, Superintendente da Secretaria Estadual de Igualdade Racial do Estado do Rio de Janeiro - órgão ligado a Secretaria de Direitos Humanos da SEPPIR, vinculado à Presidência da República. Com isso luta, entre outras coisas, pela igualdade racial e ampliação do espaço dos negros no Brasil.

E é exatamente sobre isso que Zézé Motta vem escrever aqui: suas múltiplas experiências como militante e se sobrar algum tempinho ainda nos contar um pouco da artista e da mulher.

27 de set de 2010

RECADO DO ZÉ

Vaghe stelle dell’Orsa, io non credea                                         
tornare ancor per uso a contemplarvi
sul paterno giardino scintillanti, nidade e revê-lo
e ragionar con voi dalle finestre
di questo albergo ove abitai fanciullo,
e delle gioie mie vidi la fine.(...)
                                            Leopardi, Canti

Rosario,
neste momento em que você se arrisca num projeto literário difícil e perigoso partindo em busca das pessoas, dos cenários e dos acontecimentos que fazem parte de suas lembranças, numa coincidência feliz, está sendo lançado o DVD Vagas Estrelas da Ursa de Luchino Visconti, a menos citada entre as obras-primas do diretor. O tema geral do filme – o tempo e as transformações e mudanças que ele impõe – ecoa também nos textos que você está escrevendo e vale aproveitar esta oportunidade e revê-lo. Visconti atualiza a tragédia Electra de Sófocles em torno de um personagem idealizado para Cláudia Cardinale, Sandra, que, recém casada e acompanhada do marido, retorna à cidade onde nasceu e passou a infância para uma homenagem ao pai, um judeu assassinado num campo de concentração. A cidade é a pequena Volterra, milenar e corroída pelo vento, parada no tempo, mas onde ainda permanecem escombros de construções etruscas, pré-Império Romano. Em casa, o inesperado reencontro com o irmão há muito desaparecido, o irmão com quem compartilhava, secretamente, a intenção de vingar a morte do pai que a mãe de ambos, com a cumplicidade do amante, denunciou aos nazistas. Visconti acompanha com ternura a paixão amorosa que vai se revelando entre os irmãos, deixando o filme fluir com os prelúdios de César FRANCK e citações do poema Le Ricordange dos Cantos de Giacomo Leopardi (1798/1837), cujo primeiro verso dá título ao filme e ao livro de memórias que o personagem Gianni (Jean Sorel), o irmão, escreveu sobre a infância na casa paterna. Não deixe de ver.
P pinheiro

CANTO DOS AMIGOS

MÃOS DADAS


Outro dia, caminhando no Parque da Cidade, vi um casal de idosos, lado a lado, lendo livros, totalmente absortos e, de certa forma, intui que afetivamente estavam de mãos dadas. Um amparava ao outro em todos os sentidos possíveis, compartilhando emoções, estórias e vivências. Persegui com o olhar até que, cortando a cena, vi uma jovem mãe, com seu filho, de calção azul, pedalando uma bicicleta vermelha, começando a aprender a seguir sozinho mas ainda de mãos dadas. Parei e comecei a tentar descobrir, ansioso, também um outro casal de mãos dadas, o que confesso foi demorado. Eram muito jovens deveriam ter lá os seus 21 anos e a mulher estava grávida. Será este o destino das mãos dadas? Quando somos pequenos (princípio), no ápice do amor (meio), e no entardecer do carinho (fim)? Então também as mãos dadas têm o seu ciclo vital, como qualquer outra ser vivente? Que pena, romanticamente eu pensava que talvez as mãos dadas escapassem desta cruel sina da realidade. Mas, para minha paz, encontrei no Drummond a resposta e até imaginei que os idosos estivessem lendo este poema:

Mãos Dadas - Drummond
Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros
Estão taciturnos, mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considere a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história.
Não direi suspiros ao anoitecer, a paisagem vista na janela.
Não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida.
Não fugirei para ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.
João Siqueira

22 de set de 2010

AQUI SE COME BEM

BACALHAU DE MANAUS

Acabo de chegar de Manaus, terra boa, sem dúvida, onde porém, não apenas os turistas, mas os próprios manauenses usam guarda-sóis. O calor é (literalmente) tropical. Mesmo. Um sol inclemente, o ar sufocante. Para quem gosta de um friozinho como eu, uma tortura medieval.
Mas estou aqui para falar de comida e não de sofrimentos.
A regionalidade se faz tão presente que só encontra paralelo aqui no Brasil com as coisas da nossa Bahia. A culinária é o maior exemplo disso. Nomes exóticos como buriti, camu-camu, jambu, tucumã, farinha de uarini e pimenta de murupi convivem em harmonia com expressões já tradicionais, embora não menos estranhas, como açaí, cupuaçu, tucupi, tacacá e que tais. Curiosamente, outra semelhança com a velha Bahia se repara no atendimento: a presteza do serviço também se assemelha com algo assim: “estreeeessssa naum, meu reeeei, já ta saiiiindu”.
Aprovei sem grandes louvores o pirarucu, o bacalhau de lá e mais enfaticamente o tambaqui, em especial sua costela. O bicho, embora de rio, tem um sabor que lembra o da carne de porco, com mais suavidade. Sua carne é tão agradavelmente gordurosa que daria para pururucá-la com facilidade.
Como estas coisas são difíceis de achar por aqui, estou sugerindo então um “pirarucu” de bacalhau, no forno, com purê de mandioquinha (que me agrada mais que o tucupi) e coalho.
Vamos à receita então:
Descasque um quilo de mandioquinhas e as cozinhe juntamente com outro tanto de bacalhau em água temperada com sal. Depois de tudo cozido, escorra. Reduza imediatamente as mandioquinhas a purê e conserve quente. Enxugue as postas de bacalhau, limpe-as de peles e espinhas e ponha-as dentro de um pano grosso. Esfregue em cima de uma mesa até o bacalhau ficar bem desfiado. Descasque e pique finamente dois dentes de alho e misture-os no purê, acrescido das lasquinhas de bacalhau. Junte um pouquinho de azeite aquecido, aos poucos, mexendo continuamente com uma colher de pau. Junte um copo de leite bem quente, também aos poucos sem parar de mexer para ficar um purê seguro e fofo. Tempere de sal e pimenta. Coloque tudo num pirex untado com manteiga e cubra com lascas de queijo coalho. Leve ao forno aquecido a 190º até alourar. Enfeite com azeitonas verdes sem caroço e sirva quente com uma salada verde. Para ficar com a cara de Manaus, sirva ao lado algumas rodelas de banana frita.
Deve dar para quatro gulosos.

Victor Rodrigues

21 de set de 2010

SONHOS ROUBADOS

Cheguei de Goiás cedinho sem saber direito o que fazer. Uma coisa era certa, havia realizado o que me propusera: vir conhecer o Rio, que só vira por fotos e filmes. Me chamo Andrea e trabalhei toda a minha vida numa fábrica de botões. Ninguém pode imaginar como isso pode ser monótono e mecânico.
Sou uma pessoa sem história. É isso mesmo, não tenho nada de especial para contar, a não ser essa minha paixão enlouquecida pela cidade.
Assim que recebi minha aposentadoria e os outros benefícios, pensei: pronto! Agora vai se tornar realidade! Vou conhecer o Rio e quem sabe talvez, realizar até meu sonho de ir lá morar. Nada me prendia à Anápolis, meus velhos já eram falecidos, nunca me casara... filhos. Nada.
Foi assim que tomei meu ônibus para vir pra cá. Sabia que iria chegar numa parte feia da cidade, por isso contratei uma excursão para conhecer todo o Rio: floresta da Tijuca, Jardim Botânico, Alto da Boa Vista, Copacabana, Ipanema, Leblon, tudo... Até a Niterói eu fui porque sabia que era muito bela e podia-se vislumbrar o Rio de lá, inteirinho. Eu não me continha em ver tanta beleza. Essa cidade em maio... Não sei nos outros meses, mas em maio a luz aqui é lindíssima. Ademais, não faz frio nem calor. É perfeito. Devem estar me achando uma interiorana burra e deslumbrada. E eu sou mesmo. Mas não me importa, a vida não me deu muitas oportunidades de crescer, de ser alguém, e é verdade, devo confessar: eu nunca batalhei muito por isso. Fui me acostumando, me encostando e fiquei que nem planta sem luz: pequena, feia, sem viço ou seiva. Seca. Por isso, talvez, nenhum homem tenha se interessado por mim.
Chega! Chega de lamúrias, vou olhar a paisagem e beber do belo. Estávamos num ponto do Leblon que era deslumbrante, mais um pouco e subiríamos para São Conrado. Fiz sinal ao motorista indicando que queria descer. Eu só trazia comigo uma maleta de mãos, por isso ia ser fácil me locomover sozinha. Desci e sentei-me num banquinho para de lá ficar olhando o mar. Que imensidão, meu Deus! Depois fui devagarzinho caminhando até o final daquela praia.
Não sei como aconteceu. Subitamente, pessoas começaram a correr em todas as direções, fiquei parada sem entender nada. Não consegui reagir. Morta de medo. Quando olhei para o lado um menininho pequeno puxou uma navalha e veio em minha direção:
_ Pode passar tudo isso, tia. Vai passando e não me olha.
Agarrei com força minha maleta: tudo o que eu tinha, inclusive o dinheiro, estava guardado ali. Fiz menção de me virar para fugir. Nada feito. Me vi cercada por todos os lados. Crianças armadas de revólveres e canivetes. Tremia. Tremia tanto que deixei cair a maleta. Era o que estavam esperando. Agarraram minha maletinha e correram, correram tão rápido que quando pisquei estava tudo acabado.
Por que não escondera o dinheiro? Eu era matuta mesmo, uma boba. Que ódio tive de mim. Fiquei sem reação. Agora estava tudo perdido. Todos os meus sonhos foram embora. Desceram pelo ralo. É muito triste constatar que toda a sua vida se foi como num passe de mágica.
Sentei novamente no banquinho e chorei. Chorei de soluçar alto. Não sabia o que fazer. Chorei tanto que até um senhor aproximou-se de mim oferecendo sua ajuda. É. Ainda existe gente boa por aí...
Chorava e pensava: e agora? Meu sonho acabou... Fui andando pela areia ainda quente em direção ao mar. Só o vira de longe. Que força, que magnetismo. Que beleza! Ele parece nos atrair que nem imã. Senti-me completamente entregue. Nunca vira nada tão belo... Divisava o horizonte ao longe. Entrei na água. Fui andando até perder o pé. A lua já se insinuava a céu aberto, desabrida e voluptuosa. Fui andando até nos tornarmos uma coisa só: o mar e eu.

13 de set de 2010

AMOR AOS 60

Os gestos são agora comedidos. As distâncias respeitadas. A privacidade de um e do outro, um bem com o qual não se brinca. Já não ateamos fogo às vestes por um atraso ou telefonema que se esperou e não veio. É assim. Não sofremos mais por qualquer coisa. Nem o coração bate disparado quando a campainha toca, no máximo ficamos inquietos.
É assim, mas eu juro que é bom. A serenidade veio para ficar. Assim como com nossa maturidade conseguimos enxergar o outro e respeitá-lo com suas qualidades e defeitos. Preferimos ficar a sós muitas vezes e o outro também. Aprendemos a curtir a nossa companhia assim como a companhia do outro. Aliais, só porque aprendemos a gostar da nossa solidão, podemos apreciar o outro em sua totalidade.
Já não somos crianças, há muito a adolescência se foi. Tivemos 30 e agora são mais 30. Todas essas épocas se bem vividas é que tornam os 60 anos uma idade radiosa. Vocês devem estar pensando: radiosa?! Ela deve estar maluca. Radiosa sim, ou vocês pensam que perdemos o tesão?! O tesão no outro e pelas coisas da vida.
Eu adoro me arrumar e ficar bonita pra quem me ame, ou mesmo que não, adoro ficar atraente pra mim. E me acho ainda bonita, sim. Sei que poderia dar uma “puxadinha” aqui, um botox acolá. Mas isso já não me deixa doente. Eu me aceito com minhas rugas e os cabelos brancos que teimam em aparecer de 15 em 15 dias. Nisso a moda não nos poupou. Em sua ditadura. Porque releva a barriguinha e os cabelos brancos dos homens, assim como a gordura? E nos quer sílfides, de cabelos sempre retocados.
Vocês querem ver como os 60 são legais? Essa ditadura conosco não é tão rigorosa assim. Ou eu pelo menos não me cobro esse rigor, além de achar lindo mulheres que assumem seus cabelos brancos.
Não sei se consegui explicar o amor aos 60. É difícil, quase impossível falar de amor generalizando. Escrevi o que sinto e como vejo o que vivo.
Uma última consideração, e essa bastante minha: não suportaria mais, dividir o mesmo quarto com ninguém. Perto, próximo, ótimo. Por uns dias, ok. Mas para sempre, não mais. Eu gosto demais da minha companhia e de dormir com meus cachorrinhos.

NOTA SOBRE "AQUI SE COME BEM"

O nosso querido chef Victor Nuno tem mesmo nos deixado chupando dedos, mas promete voltar essa semana de Manaus com receitas surpreendentes...

NOTA SOBRE "RECADO DO ZÉ"

Gente, o Zé Antônio não sumiu à toa. Ele está prepando um vasto material pra gente. Aguardem!!!!

NASCI PARA BAILAR

Esse conto é parte de um roteiro que deveria ter sido filmado, mas por questões burocráticas-financeiras brasileiras não saiu. O roteiro é uma adaptação que fiz baseada no célebre conto de Hans Christian Andersen, Os Sapatinhos Vermelhos.

João, vulgo Jana, seu nome de guerra, veio de Pernambuco, com vinte e poucos anos, tentar a sorte no Sul Maravilha. Homossexual assumido, em Pernambuco se virava como cabeleireiro, costurando, enfim, fazia de um tudo.
Muito cedo, fora expulso de casa, graças às suas preferências sexuais. Com um pai machista e uma mãe passiva, nunca teve um lar. Nunca se sentiu pertencendo a algo ou alguém. Alimentou anos a fio a fantasia de que alcançaria dinheiro, glória e sucesso quando se mudasse para o Rio, onde poderia exercer finalmente suas preferências sexuais, sem cerceamentos ou disfarces. Assim que conseguiu juntar um pé de meia suficiente para a mudança, "pegou um Ita no Norte e veio no Rio morar".
Aqui chegando, sem conhecer nada nem ninguém, com os poucos trocados que economizava, vagou de rua em rua, de hotéis baratos a miseráveis. Ouvira falar que era na Cinelândia que as coisas aconteciam. Que homossexuais como ele gozavam de liberdade, podiam se exercer por completo. Como sempre fora seu sonho trabalhar em teatros como figurinista e/ou cenógrafo, por lá aportou em busca de trabalho. Como seu dinheiro acabara, dormia nos bancos de praça enquanto batia de porta em porta à procura de emprego. Qualquer coisa servia desde que o permitisse estar perto do mundo do show business. Finalmente conseguiu trabalho no almoxarifado de um teatro por ali. Sentiu-se imediatamente aceito, encontrara seu mundo. Como não era uma pessoa com grandes ambições e se sentisse extremamente carente de afeto e acolhida, conformou-se nesse trabalho subalterno, por ali se sentir amado e estar entre iguais.
Mais importante que tudo, era necessário se sentia útil, era “Jana” pra cá, “Jana” pra lá, o dia todo e parte das noites, também.
Isso o preenchia e o enchia de orgulho.
Mas João, ou Jana, não era um ser sexualizado, muito menos promíscuo, talvez pela educação rígida e repressora de casa.
Suas fantasias eram de amor, de um amor profundo. De se entregar intensamente a alguém e vice-versa. Logo, logo percebeu que ao menos ali, isso não seria fácil. Todos os romances eram levianos e passageiros. Cansou-se rapidamente desse vai e vem e conformou-se à própria solidão.
Então, quando a noite caía, quando cessavam a música e os risos dentro do teatro, se recolhia ao seu quartinho, onde montara um gongá com seus santos de cabeça. Fazia ali suas obrigações ou lia romances melosos de M. Delly.
João era dono de um humor fino, sagaz. Não era mau, mas não resistia à ironia, à mordacidade. Isso o preocupava.
Sabia-se envelhecendo e temia acabar seus dias solitariamente, tendo como único prazer a crítica ferina, comprazer-se ridicularizando a tudo e a todos de forma destrutiva. Sabia que dessa forma acabaria aniquilando a si mesmo.
Foi quando uma madrugada ouviu, perto de seu quarto, um choro de bebê.
Acordou com esse choro. Pensou estar sonhando. Tentou dormir novamente, mas o choro persistia. Levantou-se, vestiu-se e saiu do teatro, caminhou em direção ao som.
Descobriu no chão, entre um carro e outro, uma cestinha, dentro dela, um bebê urrava provavelmente de fome. Foi extasiado que João tirou a mantinha que o envolvia.
Pegando o bebê no colo, de forma desajeitada, checou milímetro por milímetro, se ele nada sofrera. Mais extasiado ficou ao descobrir uma menina linda, vestida de forma pobrinha, mas que envergava reluzentes sapatinhos vermelhos; emocionantes sapatinhos vermelhos que se chocavam com a forma que fora vestida.
João enxergou naqueles sapatinhos, um sinal.
Aquela criança tinha nascido pra brilhar. Ela não seria mais alguém na multidão. Era uma predestinada.
João sentiu-se de certa forma vingado. Aquele bebê, um dia, realizaria todos os sonhos que ele tecera a respeito de si próprio.
Sua vida jamais seria a mesma.

8 de set de 2010

TIM TIM!

Me chamo Cristal, quer dizer, isto foi um apelido que deram. Meu verdadeiro nome é Cristiane. Vim de uma família de lavradores do Sul. Pequenos lavradores. Minha família era pobre, mas tinha dignidade e honestidade... todos esses princípios morais que hoje não se usa mais. Todos dizem que sou bonita e deveria ter virado modelo, manequim como tantas outras moças lá do Sul. Mas a vida da gente nos reserva tantas surpresas! Conheci Alfredo ainda garotinha, numa festa em Blumenau onde ele tinha ido a passeio. Eu era quase uma menina. Ele se apaixonou por mim e foi conversar com meu pai, dizendo quem era e que suas intenções eram sérias. Pretendia se casar comigo, se papai não se opusesse. Papai vislumbrando uma vida melhor pra mim, concordou. Eu vislumbrando o Sul maravilha, topei. Mal sabia o que me esperava...
Minha profissão foi cuidar do Alfredo. Por vinte anos me dediquei a ele, agüentando seu mau-humor, suas grosserias e engolindo tudo, sem brigar. Sei lá, de alguma forma acho que eu lhe era grata por me dar uma casa, me feito ser sua mulher legítima. São coisas que eu prezo e de mais a mais essa foi minha formação: ser honesta e íntegra foi o que meu pai me ensinou.
Sofri muito esse tempo todo, chorava sozinha em meu quarto. Apesar disso não me deixei parar no tempo. Estudei muito, li à beça e fiz inúmeros cursos. Sempre fui ligada, Alfredo era tão ciumento que eu tinha que ter as aulas em casa, embora isso custasse o dobro. Ele não se importava porque estava milionário. Tinha uma banca de advocacia, quem conhece esses profissionais sabe do que estou falando. Mas foi correto comigo, como não tinha herdeiros, deixou tudo pra mim.
Quando ele morreu correu o inventário. Sem opositores, logo eu estava milionária. E me vi, da noite pro dia, sem saber o que fazer dessa fortuna toda. Logo, logo chegaram os “amigos”do Alfredo para me ensinar o que fazer do dinheiro. Posso ser interiorana, mas não sou burra. Nunca fui tão paquerada em toda a minha vida. Espertalhões, conheço essa laia toda. Através do Alfredo eu aprendi advocacia. Ha-ha.
Consultei a única pessoa no mundo que eu tinha confiança: papai. Ele me pediu um tempo pois iria falar com seu gerente e logo me daria resposta. Papai pode ser bronco, ter passado a vida com a mão na terra, mas é muito inteligente e sábio, coisa que hoje é matéria rara. Seu gerente logo abriu uma conta em meu nome na Espanha e me aconselhou a só gastar os juros, que mesmo eu morando fora daria pra viver super bem. Pensei em Madrid porque conhecia de cor seus quadros, seu cinema, e adorava sua música. Entre os cursos que fiz um foi aula de canto. E se eu podia escolher, por que não Madrid? De noite acordava sonhando, me via cantando em boites pequenas música brasileira.
Deus meu, eu agora era livre e sabia o quanto isso havia me custado. Depositei um bom dinheiro na conta da minha família que eram as únicas pessoas a quem eu era ligada. Tudo para mim será novo. Vou olhar as coisas como se fosse pela primeira vez, porque de fato é assim.
Eu não tive adolescência, mal tive infância trabalhando na lavoura. Meu casamento com Alfredo foi quase uma escravatura. Não. Foi uma escravidão de fato.
Pisarei no chão como os primeiros astronautas pisaram na Lua. Dá até medo. Será uma emoção após a outra. Tenho chorado muito, não sei se de felicidade ou tristeza. É tudo isso misturado. Agora de fato começarei a viver.
Quando estiver a bordo da primeira classe super luxo de um jato qualquer, eu que nunca saí do Sul ou do Rio, tomando meu champagne pra lá de merecido, lembrarei e hei de conseguir rir muito, pensando como o destino as vezes pode ser sábio, nas voltas que o mundo dá.
Peguei outro dia entre meus guardados essas anotações: Sem olhar para trás ir para uma cidade estrangeira de preferência onde não se conheça a língua. Me perder entre desconhecidos que amigos se tornarão.Sentir a angústia do não existir, existindo. Farei tudo minuciosamente ser mais uma na multidão e adquirir uma nova “persona”. Mas o melhor de tudo será abandonar o meu antigo eu, minha casa e tudo que vivi até então. Poder recomeçar do zero.
Afinal isso foi por mim sonhado tantas vezes, cada briga que tinha com Alfredo eu engolia os desaforos ouvidos, sabendo que um dia isto teria um fim.
Esse dia chegou finalmente: Movida madrileña, estoy a camiño! Sempre fui louca por Almodóvar! Tim, tim!

6 de set de 2010

CANTO DOS AMIGOS

Soninha Toda Pura

Hoje, depois de mais de treze anos sumida, reencontrei Soninha.
Caminhava na Praia do Recreio com o seu filho, que aparentava onze anos.
Continuava bonita como eu me lembrava.
Ao seu lado o marido, um belo garotão tatuado, com uma prancha de surf e uma bicicleta, queimado por um Sol como ainda não se viu nestes meses no Rio.
Foi um belo e emocionante reencontro e ela me disse o que faz atualmente: É secretária executiva no Projac da Globo.
Conheci Soninha na década de 90, quando parávamos no mesmo estacionamento na cidade, ali na Av. Visconde de Inhaúma.
Eu tinha um Chevette e Soninha um Escort Sport do ano, super equipado, com a intrigante placa EDU 1945. Ela era atendente de caixa no antigo Bamerindus, que virou depois o HSBC e certamente pelo salário, escolaridade, e perfil familiar nunca poderia bancar tal extravagância. Ficamos realmente amigos, de dar carona um para o outro, quando nossos carros iam para revisão ou algum imprevisto surgia, tal como Soninha ficar sem dinheiro para a gasolina.
Não resisti a curiosidade e quis saber qual era a mágica para bancar tal carro e Soninha, toda pura, me contou seu segredo de polichinelo.
Eduardo (O Edu da placa), tinha se apaixonado por ela, apesar dos 25 anos de diferença de idade. Soninha, com toda sinceridade dos seus 22 anos me disse:
-“João, imagine você que só com o segundo grau incompleto, morando numa casa com meus pais, na Curicica, perto do Rio Centro, trabalhando como bancária, se eu tenho condição de bancar esta vida, este carro, minhas saídas, minhas roupas e tudo mais?”
-“Resolvi ser prática e namoro um empresário que é apaixonado por mim e resolvi ser a “Alfa2”. Aqui explico: Na época existia uma novela na TV que o personagem principal tinha a esposa (Alfa1) e a outra (Alfa2). Soninha disse isto rindo e explicou:
-“O Edu não sabe que ele é o Beta 1, pois tenho também o Beta2 e Beta 3!”
-“Não vejo nada de errado, pois sei que tudo é passageiro, mas enquanto isto, faço o que quero fazer e até ajudo minha família”. E contou-me uma estória interessante acontecida no Dia dos Namorados. Do Beta 3 ganhou um CD ,que repassou para o Beta2. Do Beta 2 ganhou um “Liebfraumilk”, insuportável vinho alemão doce (garrafa azul), muito popular na época, que repassou a Beta 1(Eduardo). De Beta 1 ganhou um anel com um pequeno brilhante que não repassou a ninguém. Todos ficaram felizes.
Todos comeram Soninha, (especialmente Beta 3 que nada ganhou, pois Soninha explicou que estava dura) e assim ela ia administrando sua micro empresa – Soninha Ilimitada!
A capacidade criativa e a logística de Soninha eram impressionantes, assim como o interior de seu carro que tinha roupas de ginástica, sapatos, mochilas, maquiagem e vestidos estrategicamente deixados na mala. Assim ela vivia a vida, pura, simples e feliz, sem conseguir ver nada de errado ou mau no que fazia. Alfa1 finalmente comprou um pequeno apartamento em Vila Valqueire para Soninha e aí, pela primeira vez minha amiga baqueou. O fantasma da liberdade perdida começou a incomodar e o desejo de Eduardo ter um filho e mudar de mala e cuia para o apartamento de Soninha, começou a deixá-la triste e sem vontade de continuar a viver daquele jeito.
A gota dágua aconteceu no dia que Eduardo, numa das inúmeras viagens da sua esposa, a levou para conhecer seu apartamento no Leblon e Soninha constatou que o seu apartamento em Valqueire era uma xerox mal feita daquele da zona sul, apesar de ter os mesmos horríveis móveis da Lacca na tonalidade vinho. Estranhei sua ausência no banco, na cidade, no estacionamento e uma semana depois me ligou e disse:
-“Repensei tudo, sai do banco, acabei com os três, devolvi a porra do apartamento de Valqueire, voltei a estudar e estou trabalhando como auxiliar de escritório numa empresa de publicidade.
-“Não dava mais para viver daquele jeito, quero mais para mim, quero escolher o que faço, o que compro, o que desejo.”
Ainda nos encontramos mais algumas vezes durante aquele ano e soube que iria tentar vestibular no ano seguinte. Passaram-se treze anos e fiquei feliz pelo reencontro.
O filho de Soninha (que por acaso se chama Eduardo) é do surfista, que é dono de uma loja de roupas esportivas. Soninha sorriu e me disse na encolha:
-“Imagina se meu marido soubesse daquela Soninha!”
Para mim, Soninha foi e é “A Soninha Toda Pura”, pois a coragem da mudança e sua força, assim o demonstraram. Longa e próspera vida Soninha e um beijo deste teu amigo.

João Siqueira
RUA DA MATRIZ – o pouco que consigo me lembrar

Para Anna Maria Assis

Me vejo em sonho. Brumas de antigamente. Estou sentadinha, ainda bem criança na escada de pedra que levava para o jardim de inverno, na casa do papai. Tudo o que restou dessa casa onde passei minha infância e adolescência foram escombros. Ninguém consegue construir no local. As energias que pairam por este local mágico são fortíssimas. As pessoas ainda não compreenderam isso.
A minha presença, assim como a da minha família, ainda deve estar muito intensa ali. Afinal, bela parte de minha vida passei ou pendurada na mangueira ou namorando no portão. Aquela mangueira, devem ter arrancado e feito dela pedacinhos, pois se esquecem que a natureza tem consciência, a gente pensa que não, mas tem vida própria e ela se vinga.
Tudo em nome do vil metal. E é a tal história, todo mundo é culpado, mas ninguém assume sua parcela. Estamos todos aí empurrando tudo com a barriga. Volto aos meus sonhos de antigamente e me vejo ainda criança brincando na rua (na época eram raros os carros, pelo menos não passavam por ali) brincadeiras de outrora. Duvido que alguma criança hoje conheça qualquer uma delas.
As crianças hoje já nascem informatizadas. Morro de pena. Não tiveram infância. Nunca brincaram de baleado, chicote queimado, amarelinha (atingir o céu...) e por aí afora. Meu Deus, eu era feliz e não sabia.
Da mangueira ao portão foi um pulo. Explicando melhor: de garota levada a uma quase adolescente que namorava no portão, não me lembro ter se passado muito tempo. Creio até que eu fazia as duas coisas simultaneamente. Ou minhas recordações assim o querem... Meu Deus, que época boa!
Época de família com filhos numerosos, que cresciam soltos brincando na rua. Tempo em que os garotos de “família” se irmanavam com aqueles dos morros. Quando a favela era pacífica e podia-se mesmo brincar por ali!
A bruma desce novamente e tolda minha lembrança... Estou novamente aqui e agora, na era cibernética em 2010, nesta cidade violenta. Seria bom viver só de lembranças... Queria tanto continuar sonhando... Acho que é por isso que escrevo...

31 de ago de 2010

SIM, SENHORA

Me chamo Ana Paula, mas as pessoas me chamam de Aninha ou de Paulinha. Este tratamento diminutivo é irritante. Porque não Ana simplesmente ou Paula? Deixa pra lá ..... Não vou esquentar com isso enquanto escrevo essa tentativa de “Breves Memórias”, onde pretendo contar toda a verdade e não deixar nada escapar. Acho que me fará muito bem .... Bem, até agora não tenho do que me queixar. As coisas vão muito bem. Eu diria que até demais. Dá até para desconfiar. Às vezes é a tempestade que se avizinha, posso até ouvir raios e relâmpagos.
Sinto falta de algo que faça pulsar meu coração .... E isso tem tanto tempo .... Saudades de uma boa paixão. Daquelas que fazem nossos alicerces estremecerem. Talvez seja melhor nem brincar. Mas a vida anda um rame-rame. Vou parar de escrever um pouco e tomar um cafezinho. Pronto, estou de volta.
Tava dizendo que a vida anda um rame-rame. Essa é que é a verdade. Tô ficando velha .... Investirei no figurino para levantar o astral.
Parece até piada, mas não é. Outro dia Silvinha ligou dizendo que está organizando danças de salão para a terceira idade, para a boa idade, disse ela. Até parece, só rindo. Ela contrata uns bailarinos profissionais e chama as amigas e cobra por isso! Um escândalo! Qualquer hora vou dar um pulinho lá só pra rir das “peruas” um pouco. Deve ser muito engraçado.
Outro dia,e eu volto ao meu relato. Ainda acabo pagando pela língua. Acabei indo ao “forró” (só chamando assim) da Silvia e tenho que confessar ter adorado. Deixei o Márcio em casa, ele anda cada vez mais sombrio e taciturno, e lá fui eu. Foi bom para desenferrujar. E tenho que confessar mais, tem uns bailarinos que até dão pro gasto. Na minha idade, aquela que não confesso nem prá mim, nem sob tortura. Aliás já menti tanto sobre ela que juro ter esquecido. Melhor assim .... Mas homens prá mim têm que ser mais maduros. Quem gosta de criança é babador.
Um professor de dança, em particular, que se chama Jorge, apelido “Negão” a boca pequena, eu não repito nem prá mim, que eu achei muito sexy. Ele até daria umas boas sacudidas. Rá, rá, rá ....
A gente tem mesmo que levar a vida de forma mais suave e engraçada. Mas a verdade é que rolou uma “transa” lá em “Deus me livre’’, não posso nem repetir onde, porque não conheço mesmo nada, além túnel.
Sei que há muitos anos não vivia tão tórrida “trepada”. Enlouqueci.
Deixei de escrever uns tempos, agora eu volto. Nesse tempo que fiquei sem escrever, rolou de tudo. Tenho que confessar: me apaixonei pelo Negão (não tem graça nenhuma, é assim que ele é conhecido), mas me apaixonei de financiá-lo em tudo, fazer todas as suas vontades e isso porque? Pelo sexo, eu não posso dizer que o ame, seria mentira. Mas me viciei. E eu que me apaixono por vícios vários. Vícios voláteis, na verdade. Na verdade, eu nunca me fixei em nada. Só homem e dinheiro. Me viciei no cheiro que essa “gente de cor”exala. Vicia, suor, cerveja e ‘’essa cor’, é ..... Me viciei no cheiro da pobreza para encurtar a história. Fiz tudo pelo Negão, prometi mundos e fundos para que ele continuasse comigo. E ele nada. Casou com uma mulata. Mu-la-ta. Fui trocada por isso? E esse meu vício virou doença Comecei a andar de ônibus, pode? E quando sinto forte esse cheiro de pobreza, dou um jeito de ir me chegando, até que “role” alguma coisa. Foi a forma que encontrei para superar o “Negão”.
É. É muito frágil a vida, de quase nada ela é feita, basta um escorregão que mergulhamos no pântano e no inferno de nossas consciências.

30 de ago de 2010

SALVE FIDEL!

O genial francês A Culpa é do Fidel!, é o primeiro filme dirigido pela corajosa Julie Gavras, que teve a quem puxar já que é filha do grande cineasta Costa-Gravas que sempre lutou a favor das minorias e contra os regimes totalitários. Dona de um humor sutil e irreverente Julie retrata a vida de exilados das ditaduras do Terceiro Mundo em Paris. Tudo sob a ótica de uma burguesa menina francesa que vê sua vida mudar da noite pro dia. Imperdível! E o melhor de tudo: está em todas as locadoras.

23 de ago de 2010

PRA PENSAR...

“Na primeira vez eles se aproximam e colhem uma flor de nosso jardim e não dizemos nada. Na segunda noite já não se escondem e pisam as flores, matam nosso cão e não dizemos nada. Até que um dia o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a lua e, conhecendo nosso medo, arranca-nos a voz da garganta e, porque não dissemos nada, já não podemos dizer nada.”
Mayakovsky

17 de ago de 2010

CANTO DOS AMIGOS

Lembram do conto Sunday, bloody, Sunday que eu postei há umas 2 semanas?! Então, o Canto dos Amigos hoje traz uma daquelas gostosas coincidências inexplicáveis da vida, especificamente na passagem “Conheço uma pessoa que teve decretada morte clínica, quando conseguiram reanimá-la, ela ficou puta da vida, pois nunca se sentira tão bem como quando do outro lado” eu misturo às vivências da personagem, às minhas. E está aí o depoimento da própria, na vida real...

A MORTE ME CAIU BEM

Eu morri. E voltei aqui pra contar: morrer é uma delícia, foi a melhor experiência que já tive nesta vida. Não me lembro do dia em que nasci, nem de como era antes, lá no útero da minha mãe. Acho que, pra mim, não deve ter sido nada fácil nascer. Nasci arrancada a fórceps. Se não estou enganada, acho que ouvi minha mãe contar que vim enrolada no cordão umbilical. Morrer é sonhar. Melhor é o sonho, melhor é a morte. Engraçado que, para quem morre, a palavra morte não combina. Morte é liberdade, é voar por aí, sem dor, sem preocupação, sem excesso nem falta. Longe de ser vazio, é a leveza do pensamento. Nada de conta pra pagar, nem de horário pra acordar. Sem pressa, sem estresse. Vão-se embora as celulites, as rugas, os chatos, as culpas, os julgamentos. Como foi bom morrer, nem sentimentos eu tinha. Nem raiva, nem frustração, nem pressão. Só paz e amor. Na morte, não tinha esse desfibrilador no meu peito, o desgaste na C4 e C5. Nenhuma dor na cervical, nenhuma tensão. Nada de melasmas alastrando-se pelo meu rosto, simplesmente não tenho rosto. Não tenho corpo. To lá em cima, flutuando, viajando sem enfrentar aeroportos ou assentos de avião. Tenho tudo, não devo nada. Não preciso de mais nada, estou em paz. Aquilo sim é a paz. Sou criadora e criatura. Sou pintora, sou atriz. Sou a música, sou a água, sou o gozo, sou meu próprio sonho e não sou nada. A plenitude de não ser nada. Ali, naquele estado, nada importa. Simplesmente sou: nada e ao mesmo tempo todo o universo. E, de repente, sou arrancada de meu sonho.
- Você está bem, você está no hospital. Que sorte a sua!, ouço.
- Mentira, me deixem em paz, eu morri. Eu MORRI!
- Não, você não morreu. Sorria, você está sã e salva, no CTI.
Não pode ser. Acabaram com meu sonho e ainda dizem que dei sorte. Estava saindo de fininho, feliz da vida, trocando essa carcaça antes da perda total, e cá estou de volta, droga! Entubada, perfurada, fibrilada, cateterizada. Nossa, que sorte! E a conta desses “procedimentos” subindo mais do que o preço do barril de petróleo. Sortuda!
-Mentira! Eu morri, sim. Deixem-me sonhar em paz.

Ticiana Azevedo é jornalista e escritora, co-autora com Consuelo Dieguez do livro "Cuidado! Seu principe pode ser uma Cinderela - guia prático para identificar um gay no armário" (BestSeller - 2010)

11 de ago de 2010

RECADO DO ZÉ

Rosario, minha recomendação é para que você veja um filme (em DVD Lume) que é uma obra prima monstruosa, capaz de provocar as reações mais diversas: entre os críticos alguns adoram outros odeiam e nenhum fica indiferente. É Eva, de Joseph Losey, sobre as relações homem/mulher, tema surrado mas nunca esgotado em inúmeros filmes. Neste ele é o eixo de uma história sobre um escritor casado envolvido com o mundo do cinema e uma prostituta de alto gabarito (30 mil dólares num fim-de-semana... e não se deve falar em dinheiro), um abutre, disfarçado em gênio da putaria, capaz da mais impiedosa destruição. Jeanne Moreau dispensa uma sofisticada lição de representação para o cinema, criando um personagem que ninguém conseguirá esquecer depois que ver o filme, por mais que tente. A fotografia, em preto e branco, de Gianni di Venanzo descobre uma Veneza apodrecida e bela, nunca antes revelada. Coprodução entre Inglaterra, Itália e França de 1962.
Tchau, P pinheiro

10 de ago de 2010

AQUI SE COME BEM


Casadinho a Cachoeira da Luz

Aproveitei minha ida a FLIP em Paraty para, como sempre, engordar mais um pouquinho. Vários pratos locais são ótimos e de execução muito simples. A cozinha caiçara é quase sempre a base de frutos do mar e a criatividade não chega a ser brilhante. Verdade que há diversos bons restaurantes que se esmeram em “contemporaneizar” tais receitas.
O hit local é o “casadinho”, dois camarões VG recheados de farofa de camarão colados em forma de sexo oral duplo por meio de palitos. Então aqui vai minha receita “inventiva” para esta delicia e à qual dei o nome de minha modesta pousadinha.
Vamos falar em agradar a quatro pessoas:
Lavar oito camarões VG (VG mesmo!!!) apenas na água, deixando casca, cabeça e cauda e deixá-lo descansar um tempo. Espremer meio limão por sobre os bichinhos. Acrescente uma pitada de pimenta do reino.
Pegar uma bela banana da terra e fatiá-la em rodelas. Juntar com um punhado de quantidade equivalente de castanha do caju, num recipiente para serem bem socados com um pilão. Isto vai virar uma espécie de paçoquinha. A ela, juntar boa quantidade de camarões bem miúdos, completamente limpos , descascados e rapidamente cozidos, até pegarem uma cor. Formar com as mãos uma massinha com isto tudo e encher as barrigas dos VG com a mesma.
Formar quatro duplas de camarões VG com as barrigas devidamente cheias fazendo um belo 69, prendendo-os bem com palitos, para não se soltarem (quem sabe em busca de outros parceiros, se vivos estivessem).
Lambuzar ligeiramente cada dupla com farinha de trigo e, em óleo novo e fervente ao extremo, mergulhar cada dupla com uma espátula apropriada, rapidamente, apenas até as cascas ficarem rosas e crocantes. Secar tudo em papel absorvente.
Formar rabiscos em quatro pratos brancos com oyster sauce, encontrável hoje em dia em bons supermercados e/ou em lojas de produtos asiáticos. Depositar cada dupla de casadinho sobre os pratos “decorados”. Servir apenas com uma grande salada toda verde regada com belo azeite.
Comer com as mãos ou não, é irrelevante, a menos que você esteja com a Rainha da Inglaterra, mas não deixe de, a cada mordida ou garfada, dar uma passadinha ligeira no molho de ostras. A mistura final, os sabores da banana, da castanha, do crocante das cascas (que viram chips) e tudo o mais devem agradar ao paladar mais erudito, como o de vários comensais que estavam lá na FLIP .

Victor Rodrigues

9 de ago de 2010

ABRACE-ME URGENTEMENTE

— Qual é a tua, pivete? Quem manda nessa porra sou eu! Vai procurar tua turma, filha da puta!
Ioiô leva uma banda do garoto que a faz rolar no chão. Sai resmungando: “Pô! Tá pensando que é o dono da rua? Eu hein!” Não tenta revidar, pois, além de saber que ele está certo, que ela invadiu o território inimigo, é apenas uma mulher, uma menina, portanto, um ser em permanente desvantagem. Na verdade, só queria mesmo era passar um bagulho rapidinho para descolar algum, uma grana que lhe permitisse comprar a bendita cola – crack seria um luxo. Quem sabe à noitinha? Coca só em dia de festa – algo que viesse aplacar aquela fome e o temor, ambos intensos. Sem opção, vai andando pela praia em direção ao Posto Seis, buscando que a sorte lhe sorria uma vez pelo menos naquele dia.
Ainda no começo, pára e dá uns tapas numa cachaça com uma galera amiga – coisa que sempre funciona. Enquanto caminha, pensa. Seu nome é Yolanda. Yolanda da Cruz. Sabe disso porque trouxe de um dos orfanatos a cópia da certidão de nascimento. Também lá, haviam dito que seu apelido era Ioiô. Explicaram –“explicação boba essa”, pensava- que ela vivia sendo jogada de um lado pro outro que nem um ioiô, com que todo mundo brinca, brinca, mas ninguém leva a sério, e acaba sempre esquecido em cima de um móvel. Mas é claro que isso se devia ao fato de se chamar Yolanda e nada tinha a ver com essa outra baboseira. No entanto, parecia verdade mesmo, pois, desde quando sua lembrança alcançava, havia passado por mais de mil famílias sem que nenhuma a quisesse, nem como ajudante de empregada. Sem falar nos orfanatos, vários... Era essa a razão daquela enorme vontade de morrer. De repente. Sentia sempre essa vontade. E o frio na alma. Que vida sem sentido a sua...
Estranho, mas conseguia se lembrar bem de quando era pequena, pequena mesmo. Antes disso tudo. Era uma menina especial, que possuía - era só dela - um anjo da guarda, seu anjo protetor. Ele lhe dizia coisas lindas só soprando ou sussurrando em seu ouvido. Falava do quanto era bonita e parecida com a mãe – linda e boa como ela. Vez por outra, ouvia o farfalhar de suas asas. Volta e meia conversavam, às vezes por horas seguidas. E também podia enxergar sua luz, que tanto a protegia. E ele a lhe segredar coisas. Havia trazido do orfanato, junto com a certidão, uma foto da mãe. Era lindíssima: usava os cabelos na altura do ombro, ondulados e vermelhos. Lembrava uma atriz de cinema que uma vez vira na revista: Rita Hayworth. Era tão bonita quanto Rita Hayworth. Ou mais. Mais. Sabia que seus cabelos eram vermelhos como os dela. Mas –“merda”- com tanta pobreza, tanta imundície, vivia tão cheia de piolhos que eles haviam começado a cair aos chumaços. Aí, rapara a cabeça. Melhor assim. Pareceria um garoto qualquer. Talvez também por isso a visão da mãe não lhe saísse da cabeça. E a inspirava –muito. Assim como seu anjo.
Difícil dizer como tudo aquilo terminara um dia. Foi de repente que se descobriu curiosa. A curiosidade pode ser uma bênção, mas, igualmente, grande maldição. Pode ser aliada, ou pior inimiga. Germina, dando seus frutos: quase sempre nos afasta de quem somos, independentemente de nós. No caso de Ioiô, foi a grande responsável pelo distanciamento da mãe e de seu anjo protetor. Quando essas duas figuras a abandonaram, sentiu-se irremediavelmente só.
Numa manhã, acordou com gosto de ressaca na boca, misto de cola, crack, tiner e cachaça barata. Foi afastando o papelão, ainda tensa com o dia que enfrentaria. Bendito papelão aquele que a protegia dos primeiros raios solares! Foi quando deu por falta do cobertor. Alguém tinha feito um ganho. Foi a gota d’água. “É hoje!”, pensou. “De hoje não passa. É bola ou búlica!”. Era um termo muito antigo que sua mãe lhe ensinara, segundo contava, ligado ao jogo de bola de gude. Era algo assim, Ioiô não se lembrava muito bem, mas adorava repetir: “É bola ou búlica”. Achava aquilo muito chique.
Pela primeira vez, em anos, sentiu a presença da mãe e de seu anjo protetor. Mas agora era diferente. Além de intuí-los mais perto que jamais, eles pareciam chamá-la: “Venha! Junte-se a nós!”. Era tudo o que Ioiô precisava ouvir. Decidiu: “De agora em diante, será tudo ou nada. Hoje será diferente. É bola ou búlica”. Agia como suicida. Sabia sê-lo. Mas, uma vez na vida, nem que fosse a última, mudaria o jogo – as regras do jogo. Só para variar, viraria tudo do avesso. Não sabia o porquê, mas agora nada mais importava. Viera para perder, e o jogo acabara. Isso não deixava de ser um ganho, afinal.
Conscientemente, caso pensado, voltou ao território inimigo e comprou a cocaína mais cara da praça. “Coisa fina, da boa”. Olharam-na com desconfiança quando entregou todo o dinheiro que juntara. Saiu teatralmente, andando empinada. Devia lembrar um galinho de briga, sabia estar ridícula. Passou a mão numa cachaça de encruzilhada, foi em direção a Niemeyer. Lá, com um estilete, abriu a porta da camionete estacionada no declive. Pensou que seria interessante ficar ali escondida, bebendo e cheirando. Deitou no banco –“macio...”- esticava as fileiras no chão, enquanto bebia.
Repentinamente, deu-se conta do tamanho do desespero guardado no peito. Berrava: “Nasci na banda podre do mundo, claro! Nascer no Brasil é pra pagar. Ninguém nasce aqui à toa. É pra purgar, pagar, porra! Deus escolheu isso, aquele filho da puta! Fez de propósito: se esqueceu de mim! Escroto!”. Soltou um grito lancinante. Todos os seus demônios pareciam sair-lhe garganta afora. Cuspia fogo. Vomitava ódio. Cão sem dono, bebê sem mãe, loba em desespero, seu uivo alcançou a lua, toldou estrelas, perdeu-se no néon. Ioiô virou néon, sumiu por entre os anúncios luminosos que piscavam. Poeira de estrelas que ela costumava observar, doidona, deitada de costas na areia. Finalmente amor e perdão infinitos.

2 de ago de 2010

POR QUE, AMOR?

Para Ana Laura

Brigou comigo?
Eu me desarvoro
Fico sem pai nem mãe
Fico sem chão, sem pique
Quando você vai
Onde encontro paz, carinho e alegria?
Briga não, amor
Brigados estão todos
Não vamos fazer igual
Nós sempre nos amamos tanto...
Nunca brigamos, lembra?
Merecemos o melhor
Nós dois, só nós dois
Mais ninguém

Sei lá, acho que você está com medo
Por isso briga
Será que você não agüenta ser feliz?!
Ontem estava tão bem...
E agora?
Sem mais aquela explodiu feito louco
Sem razão, lobo uivando de ódio para a lua
Mas medo de que, amor?
De se apaixonar?
Você não sacou ainda
Que já aconteceu há muito tempo?!
Medo de perder o pé numa piscina de paixão?!
Mas deve ser tão bom que sou candidata...
E você vai adorar quando mergulhar pra valer!

Nunca fiz isso em toda a minha vida
Mas faço agora.
Eu te imploro.
Se precisar me ajoelho, não tenho vergonha, não
Me atiro a teus pés
Porque sei que você me ama também
Se não acreditasse nisso, nunca o faria
Mas sei do que sente por mim
Que não é pouco...
Então te imploro:
Vamos brincar de namorados?
Trocando beijinhos a céu aberto
Ou de amantes?!
Fazendo amor livres, sob a lua

Aí se nada disso der certo...
Escuta amor
Escuta com cuidado:
Venha até mim
Desarmado, você me abraça
Sem dizer palavra
Só isso me basta.
Aqui dentro está quentinho...
Venha se aquecer

SUNDAY, BLOODY, SUNDAY

Domingo é o dia. Eu sempre me organizo para não ficar sozinha. Mas por razões que me escapam me peguei completamente só, de repente.
Por um motivo ou outro, todos os meus amigos estavam se divertindo ou ocupados e eu, somente eu, sozinha no mundo.
Sou casada, mas não moramos juntos e, é claro, neste domingo meu marido estava viajando. Nem com ele podia falar.
Dizem que existe solidão e solidão. Não pra mim. Não entendo essas nuances. Sei que podemos nos sentir só, mesmo rodeados de gente. Mas, infelizmente, esse não era o meu caso. Eu estava só e sozinha. Não havia um mísero cristão com quem eu pudesse me lamentar, só como um camelo sem deserto...
Minha cabeça começou a acelerar e parecia querer explodir e não parava de ouvir um som de bate-estaca fazendo misérias em meu cérebro... Quando de repente comecei a viajar intensamente, cabeça descolada do corpo, este flutuando. Poderíamos chamar isso de “viagem astral”.
Ouço vozes antigas, eternas. Como um sonho volto à infância... longe, longe, longe “ciranda, cirandinha vamos todos cirandar...” Devem vir de algum lugar do passado. Passado/presente, presente/passado. É tudo igual como uma roda que vai e volta e nunca chega ao fim.
Sinto-me leve, queria esse estado até o final de meus dias. Conheço uma pessoa que teve decretada morte clínica, quando conseguiram reanimá-la, ela ficou puta da vida, pois nunca se sentira tão bem como quando do outro lado. Esse suave torpor me invadira e parecia querer ficar. Lá, dentro de mim, eu sabia que seria impossível. Que a realidade existe e temos que encará-la de frente e blá, blá, blá. Mas não hoje. Hoje tirei férias de mim mesma.

29 de jul de 2010

RECADO DO ZÉ


Rosario,
filmes extraordinários fáceis de encontrar nas locadoras. Você foi direta em Marlon Brando e acertou com precisão. Vou tentar com outro ator, Rock Hudson, que nunca teve o prestígio de Brando mas atuou com eficiência em três filmes que Rainer Werner Fassbinder considera entre os melhores do mundo: Tudo o que o Céu Permite, Palavras ao Vento e Almas Maculadas, melodramas dirigidos por Douglas Sirk, protagonizados por homens e mulheres embaraçados em graves problemas existenciais e amorosos. Foram realizados nos últimos anos da década de ’50 e tiveram a adesão imediata e apaixonada de todas as platéias femininas. Hoje, por méritos próprios são cults absolutos. Tudo o que o Céu Permite, em que Rock Hudson contracena com Jane Wyman, acaba de ser lançado em DVD Versátil e Palavras ao Vento com Lauren Bacall, Robert Stack e Dorothy Malone e Almas Maculadas novamente com Robert Stack e Dorothy Malone estão disponíveis em DVDs Classicline. Há outros filmes de Rock Hudson fáceis de achar: o clássico Assim Caminha a Humanidade, com Elizabeth Taylor e James Dean, O Segundo Rosto, intenso drama de suspense, dirigido por John Frankenheimer, que a crítica aponta como o trabalho mais intenso de Rock e, por quê não?, a comédia Confidências à Meia Noite, com Doris Day.
Em tempo: temos aí as fotos de Brando e Rock Hudson. Gostaria de ter também, aproveitando a oportunidade da citação dos filmes, uma foto de Doroty Malone. Ela está em Palavras ao Vento, pelo qual ganhou o Oscar de atriz coadjuvante, e em Almas Maculadas. Doroty Malone dando pinta no seu blog. Com Rock Hudson e Marlon Brando. É o máximo!
Um beijo, P pinheiro

27 de jul de 2010

TRÊS MESTRES E UM BRANDO

O principal problema que nos atinge, a nós cinéfilos, é achar aquele filme denominado pelo mercado como cult ao alcance das mãos. Hoje darei três dicas que não os decepcionarão, nem em termos de qualidade, nem do acesso, já que podem ser encontrados nas locadoras perto de sua casa. Então lá vai...

Um Bonde Chamado Desejo, de Tennessee Williams
O pecado de todos nós, do mestre Jonh Houston e
O Último Tango em Paris, de Bernardo Bertolucci

E você, Zé, o que manda?

SOBRE ANJOS E ALMAS



Minha alma passeia colorida, leve e feliz. Pela primeira vez meus pensamentos a libertaram para voar. Dar pulinhos, saltitar ao léu. E ela passeia pelo mundo, pelos entraves, rindo um pouco de tudo. Porque tudo não deixa de ter seu lado engraçado.
Minha alma é meu anjo e eu só entendi isso agora. E anjos merecem férias de nós. Que tanto trabalho damos a eles. Também querem se divertir, brincar, namorar... Não deixamos e assim eles dão essas fugidas de nós, carrascos, que passamos a maior parte do tempo impondo regras e prazos, prazos e regras.
Meu anjinho é poeta. Um poeta simples, mas dos bons. Ele vê beleza em tudo, amor em tudo e se pudesse passaria todos os seus dias contemplando a vida com olhos de rouxinol. É. É isso. Antes de tudo ele é um passarinho e quer voar e pular de galho em galho, com olhos inocentes de criança. Recém nascida, pois elas são anjos e têm alma leve que de tudo ri. Bichinhos são anjos também. Meu cachorrinho pula, brinca e ainda me dá beijinhos. Imerecidos beijos. Se ele pudesse brincaria o tempo todo, mas eu esqueci a palavra brincadeira.
Já sou um ser viciado pela vida, triste de tanto ver e viver. Perdi a criança dentro de mim, quando a encontro, consigo ser feliz de novo, mas isso é raro, cada vez mais raro porque em algum momento sumiu a inocência, tenho os olhos gastos pela vida. Mas graças a Deus, a todos os Deuses, ainda sei reconhecer almas poetas, passarinhas e crianças. E ainda tenho um anjo que às vezes foge de mim, mas quando nos reencontramos, está cheio de doçura e alegria.

26 de jul de 2010

AQUI SE COME BEM


O chef Victor cozinha como hobby mas é um mestre. Poderemos contar com suas receitas simples e deliciosas, conforme ele nos prometeu, quinzenalmente. Mas quem sabe surgindo pedidos e dicas do que gostaríamos de preparar em nossas cozinhas, ele não acaba sendo tentado a compatilhar de suas receitas inventivas toda semana!

Arroz de tomates

Numa época fria e onde o risoto chegou para dominar o mercado gastronômico brasileiro, lembrei de um arroz facílimo de fazer e que é uma delicia.
A receita é lusa e portanto, sem maiores frescuras. Vamos lá, então:

Ponha umas 150 gramas de um bom bacon cortado em cubos de uns 2cm por 2cm (já que eles vão minguar) para fritar numa grande frigideira, com um pingo de azeite (português? Você decide).
Na mesma frigideira e sem limpá-la, ponha outro tanto de boa lingüiça em rodelas (pode ser uma calabresa).
Reserve isto num papel absorvente.
Ainda na mesma frigideira, refogue duas cebolas mal picadas, cinco dentes de alho melhor picados e uma colher de sopa de orégano.
Quando a cebola estiver ficando lourinha, acrescente um quilo de tomates cortados à lusa (limpos, sem casca nem sementes) e deixe refogar muito bem. Pode dar-lhes umas palmadinhas, para esparramarem-se e formarem um molho.
Transfira o todo para uma panela que dê, junte duas xícaras de chá de arroz, deixando que ele pegue uma corzinha. Então, acrescente cinco xícaras de chá de água e ponha algum sal.
Quando o arroz estiver quase cozido, ponha uma colher de chá de açúcar.
Dê uma corrigida, apimente um pouquinho e sirva com as rodelas de lingüiça e o bacon por sobre o prato.
Deve dar para uns quatro gulosos ou para seis pessoas. Espero que gostem.

Victor Rodrigues

E AÍ?

De repente, num dia qualquer, nos damos conta do tempo perdido amando pessoas erradas, com falsos amigos e experiências que só nos deixaram um buraco na alma, nada nos dando em troca. Claro, sempre existirá a máxima de Pessoa: “Tudo vale a pena quando a alma não é pequena.” A alma pode ser grande, Mestre, mas ela merece o melhor. Fatalmente, também nesse mesmo dia, cai a ficha do pouco tempo que nos resta passando por aqui. Quem veio a trabalho que me desculpe, mas a vida foi feita para passear por ela com olhos maravilhados a cada descoberta. De quem é a culpa pelo tempo perdido? Pelas escolhas erradas? De nós mesmos, é claro. Mas geralmente isso acontece devido a nossa baixa auto-estima, via de regra, causada por uma educação equivocada, por pais que nos ensinaram que nós não valíamos a pena, que tudo que fazíamos era errado. Tudo bem, o mal foi feito, vamos reclamar com o Papa, ou já espertos pela vida, vamos aproveitá-la cientes de nossa finitude?
Nem carece responder, temos pouco tempo aqui, estão lembrados?! Que tal olhar para os lados e “descobrir” nossos semelhantes?! Pessoas iguais a nós que sofrem do mesmo mal ou parecido. “Descobrir” pressupõe amá-las: não esse amor carola que nos foi incutido pela formação jesuíta. Amor fundamentado na nossa eterna culpa judaico-cristã. Mas sim um amor que pressupõe nossas dificuldades, nossas limitações, mas também o “divino” que existe em todas as criaturas e que faculta-lhes o perdão verdadeiro, o amor verdadeiro e alguma sabedoria. Sabedoria essa, humana, com seus erros e desvios, conquanto não sejam fatais.
No dia em que olharmos de igual para igual nosso semelhante acordaremos, de fato, para a vida. Em toda a sua fealdade e beleza transcendentais. Veremos o que nos sobrou desse planeta e tentaremos salvá-lo. Se agirmos rápido, rápido, ainda dará tempo. Mas isso é urgente e requer uma mudança radical de postura. Estaremos preparados para esse desafio? Estaremos nós aptos para viver em plenitude? Que esse dia não tarde, são meus votos, pois só aí estaremos vivendo verdadeiramente.
Psiu, olha aí, ainda assim sobraria um montão de coisas para fazermos. Isso seria só o começo... Vou falar baixinho que é pra não assustar: miséria, fome, guerras, governos despóticos... eu deixei o pior para o final, eu sei. Veremos o que ainda podemos fazer...

19 de jul de 2010

A VOZ

A voz sabia absolutamente tudo, até que eu cometera um assassinato. “Você não me conhece, mas eu sei absolutamente tudo sobre você.” Era uma voz anasalada e estava claramente no viva voz, talvez pra que outras pessoas pudessem participar do que ela dizia. O viva voz produzia um eco.
- Você matou uma pessoa, pois não prestou socorro à vítima. – Dito isto, desligou.
Chequei o telefone, era um número privado, impossível descobrir.
Eu acabara de falar com minha irmã ao telefone por isso ter atendido tão displicentemente. De novo o telefone tocou... é terrível, eu sabia que deveria ser a mesma pessoa. Mas a curiosidade fez com que eu, como um imã, como se a minha mão não tivesse dono, o atendesse. A mesma voz cavernosa que parecia sair de algum lugar longínquo:
- E o Cláudio, como está ele?
Ouvi uma pausa seguida de um suspiro
Chequei outra vez o número, agora ligavam de um celular.
Eu estava completamente confusa. Da primeira vez, a voz falava que eu cometera um crime, agora falava de meu marido. Era uma voz de mulher. Seriam amantes?
O problema era que a voz estava absolutamente certa em ambos os casos. Certa vez atropelei uma pessoa na Rio - Petrópolis e não tive coragem de descer para prestar socorro. Só não sabia que a pessoa havia morrido. E o meu marido via de regra me traía com qualquer secretária mais bonitinha que via pela frente.
Mudei de número, a mesma coisa. Coloquei bina e descobri que a voz trocava de número sempre, ou ligava de diferentes lugares. Ela tudo sabia sobre mim.
Tentei usar de todos os recursos: não atendia, tirava o telefone do gancho, assim que recolocava, ele tocava. Ligava de celular, de fixo, pro meu trabalho, pra minha casa... Eu estava perdendo a sanidade. Emagrecia a olhos vistos. Descobri que ninguém na minha família estava levando a sério o que estava se passando. Isso só fazia aumentar meu medo de estar enlouquecendo, mesmo. Meu pai acabara de falecer, comecei a achar que aquela voz era encomendada por ele - a única pessoa que de fato me entendia – para depois entrar em contato comigo.
As pessoas me tratavam como louca, elas pensavam que eu podia ter perdido um pouco da razão, mas não sabiam que eu guardava muita sanidade ainda. Comecei a achar que aquilo tudo eram fenômenos mediúnicos. Eu sabia que para me comunicar com outra dimensão, eu deveria me abster do contato com as pessoas desta esfera.
Comecei a ouvir pessoas no andar de cima, onde não mora ninguém, só poderiam ser as entidades.
As vozes que agora eu ouvia me falavam em vários idiomas, eu tinha que escrever, traduzindo todas. Alguém confiava em mim. Os móveis rangiam à minha passagem, quase tudo estalava. Não tinha problema, eu estava preparada para o que fosse. Mesmo quando vieram me buscar para a internação não ofereci resistência. A minha missão superava tudo isso.

CANTO DOS AMIGOS

A MENINA DE ALPARGATAS AZUIS


Hoje acordei nostálgico e lembrei-me da minha irmã.
Quando eu era criança, existia um calçado de lona colorida e sola de cordas, que chamávamos de alpargatas, que era o nome do fabricante.
Minha irmã Maria Thereza, a Tetê, oito anos mais velha do que eu, usava uma de cor azul.
Thereza era habilidosa com trabalhos manuais e sendo a irmã mais velha, me ajudava, quando tinha que fazer aqueles artesanatos chatos, tipo “fazer um quadro com uma capa de revista em quadrinhos”.
Recordo-me de um, que Thereza decalcou com carbono em cima do papel cartão para que eu depois pintasse com tinta guache colorida.
Mostrando minha total inabilidade com a execução da arte, lógico que consegui sujar as alpargatas com a tinta, me deixando com medo da inevitável bronca que levaria.
Após o primeiro momento de explosão, ela começou a rir e disse para o neófito artista que aquela tinta saia com água.
Mas as suas alpargatas azuis nunca mais foram as mesmas, amolecidas com o banho inesperado e com o rastro da tinta.
Gostaria de ter guardado aquele quadrinho, mas até hoje ele está na minha memória, e desta forma ele ficará para sempre.
Thereza se formou, trabalhou muitos anos numa agencia de publicidade e casou-se tarde, não tendo filhos, Quando a filha de minha outra irmã nasceu, tornou-se madrinha e mãe substituta, podendo realizar por tabela o seu maior desejo.
Por conta da carga genética da família, tornou-se hipertensa e os rins ficaram comprometidos, e acabou aguardando vez na fila do transplante.
Aproveitando o maravilhoso dia de sol de um sábado de outono, há cinco anos,
Maria Thereza partiu e agora corre feliz pelos campos do Senhor reencontrando com alegria nossos pais.
Para mim Tetê é ainda aquela adolescente com sua longa trança, vestido quadriculado e as alpargatas azuis sem mancha de tinta, novinha, brincando alegre com seu irmão mais moço.


João Siqueira

15 de jul de 2010

CANTO DOS AMIGOS


FOLHETIM

Tinha sido mais uma noite infernal no conjugado que Nestor morava na Rua Taylor, perto dos Arcos da Lapa.
O calor, a dor de cabeça e o barulho do pardieiro vizinho, onde vivia uma bicha velha que fazia michê, não o deixara dormir.
Talvez fosse a fome, talvez a ansiedade do dia seguinte, não sabia bem, mas o fato era que olhava para o despertador barulhento ao lado de sua cama e as horas, torturantemente, não se escoavam, como num ralo represado por planos, perguntas e decisões.
Deixou de lutar com a insônia e refez, mais uma vez, o meticuloso plano que há meses arquitetava. Amanhã seria o dia.
Amanhã receberia sua aposentadoria, aquela merreca, que só dava para pagar a porra do aluguel, comprar uns poucos remédios, alguma comida, e de vez em quando um vinho verde, Gatão, que lembrava os bons tempos que passara com sua amada Maria das Mercês.
Há muito Maria das Mercês havia partido, ou pelo menos era isto que Nestor sentia, mas no íntimo sabia que, com a partida dela, houve também o alívio, pois a traição de Maria matava-o dia a dia.
Sozinho, apartado da família, continuava morando na Lapa, que ainda era o referencial afetivo de toda uma vida.
Atualmente desconhecia o paradeiro da sua outrora querida Mercês.
Lembrava de Maria adolescente, caminhando numa Cinelândia mágica, onde o velho Odeon foi testemunha dos beijos roubados no cinema.
Lembrava do Bar Amarelinho, onde comemoraram o primeiro mês de namoro, da Igreja Santa Luzia, onde casaram, e mais recentemente lembrava com uma dor no peito da Confeitaria Colombo, onde finalmente ele e Maria, depois de uma longa briga, despediram-se.
Não, hoje só queria lembrar de coisas boas.
Amanhecia, e o dia indicava sol ameno e tranqüilo.
As árvores da Avenida Beira Mar balançavam suavemente com a brisa que vinha da Baía da Guanabara, mas logo a direção dos ventos mudaria.
Nestor sorriu tristemente, imaginando o transcurso daquela longa manhã. Milhares de vezes havia sonhado com todos os detalhes: o que faria antes, durante e depois, quem saberia? Só sabia que aquele era o dia.
Afinal, se hoje estivesse com Maria, comemorariam mais um aniversário de casamento.
Levantou-se, tomou um banho frio, pois estava sem gás, fez a barba, observando os sulcos de tensão que seu rosto magro exibia, colocou o terno usual, meio surrado, mas ainda usável, pegou uma sacola de compras, ajeitou o cabelo, soltou o canário belga, último amigo que tinha, riu da sua própria cara, desceu as escadas e abriu a portaria com cuidado redobrado, para passar invisível por todos, pois assim era sua vida recente.
O banco, o sonho e o destino espreitavam lá fora pelo começo da manhã, e Maria das Mercês, quando soubesse, não ficaria decepcionada.
De onde ela estivesse veria do que ele era capaz.
Por muito tempo, recolhido na sua mansidão, tinha ouvido Mercês recriminar o seu jeito calmo, conformado e humilde com que levava a vida.
Na última briga ela falara claramente, tentara até explicar com isto, a sua própria traição.
Era só uma questão de tempo, horas, poucos minutos, e a Lapa e todo o Rio saberiam de um novo Nestor. Pena que não podia divulgar para mais ninguém, mas a alegria e o prazer íntimo contaminavam o seu rosto esquálido com um sorriso.
Sabia que era o dia, pois tinha sonhado com a data.
Estava escrito há mil anos atrás.
Libertou-se do prédio, das angústias e da insegurança.
As pessoas, os carros, as lojas, as manchetes do jornal barato passavam como em câmera lenta, num tempo defasado da sua própria velocidade.
Viu uma foto premonitória na “Luta Democrática” e sentiu um arrepio. Viu também a agência do seu banco na Cinelândia, perto da ABI, que estava abrindo as portas.
Cumprimentou, sem ver, o segurança do banco e, pacientemente, esperou sua vez de ser atendido no guichê quatro, conforme o sonho predizia.
Ao escutar o seu número de senha estremeceu, suspirou e partiu decidido, mas calmo, para o nascer de um novo Nestor.
No bolso uma navalha alemã, meio enferrujada e fria, aguardava.
Já passava de meio dia quando o corpo de Nestor foi recolhido ao Instituto Médico Legal. A maçaroca de notas que o caixa do guichê quatro havia colocado na sacola de compras incrivelmente ainda não havia sumido. Exatos 245 cruzeiros em notas de 5, 10, 20, ainda manchadas pelo sangue A Positivo e pelos dois tiros de calibre 32. Esvaziado o paletó foram ainda arrecadados:
Uma foto em preto e branco de corpo inteiro de Maria das Mercês, a certidão de casamento, um lenço Paramount, um pente Flamengo, um chaveiro com a bandeira do Brasil, um cortador de charutos, uma imagem de São Judas Tadeu, e uma caneta Parker de ouro.
Um bilhete enigmático, para os focas de plantão nas redações e também para a Polícia, foi encontrado:
-“Querida, não aguentei mais. Eu te perdôo!”.
Os números 3030 e 13 apareciam escritos no canto do bilhete.

João Siqueira