12 de out de 2010

COM O CORAÇÃO NA BOCA

















O ritmo das ruas, o frio na alma, o medo da loucura, esse meu amor que nunca chega...
Não importa, não quero mais. Tenho que driblar a dor. Tento driblar a dor, mas ela me alfineta a alma.
O vai-vem do trânsito. Sofrer não tem hora, lugar? Coração bate forte, bate rápido, bate mais. Sinal dos tempos...
Eu envelheço... Tem importância? Só a depressão crescente.
Tenho que driblar a dor da dor, da falta de amor, vazio na alma, pânico presente, vertigem, vontade de morrer e rápido, vapt vupt. Que seja indolor, que seja breve...
Alguém falou de uma luz? Fim do túnel.
Coração que pulsa, coração que sente. O medo vem na boca, que seca e emudece... Vertigem.
Meu coração batia desenfreado, descompassado, como o ritmo das ruas. A agonia era tal que não me permitia pensar. Também, pra quê? Não dava pra mudar as coisas... A angústia não me dava descanso. Minha cabeça perecia bateria de uma escola de samba. Minha taquicardia absurda fazia meu coração bater na boca. Tudo passa voando ante meus olhos: carros, edifícios, pessoas, tudo. Não consigo me fixar em nada. Também pudera, foi assim que a maioria das pessoas escolheu viver... Que pode fazer um pobre vagabundo como eu?
Falta de ar, muita falta de ar... Tô com medo de de repente acontecer o meu final, logo agora que resolvi encarar tudo de frente, fazer minha vida finalmente ter sentido. Não. Não vou deixar. Sou forte, combativo, lutarei até o último minuto.

Imagem de Lucien Freud

11 de out de 2010

2º TURNO

Caros leitores, gostaríamos de deixar claro que quanto às questões apresentadas no texto a seguir não nos posicionamos de forma fechada, por acreditar que ainda mereçam discussão. Mas não poderíamos deixar de dar voz a um dos grandes colaboradores do nosso blog. Por isso pedimos que externem seja lá o que pensem, pra fazermos um debate bem democrático. Não deixem de dar suas opiniões!

Por Victor Costa Rodrigues, nosso também chef

Talvez tenha sido importante para a democracia brasileira a não-vitória de Dilma/Lula no 1º turno.
Certamente foi fundamental a aposta em Marina, não pelo que ela representava pelo novo, pelo não-manjado, mas, em especial, pela questão ambiental que, agora, ela poderá politicamente fazer valer junto aos programas dos dois candidatos.
Há que considerar, por oportuno, que o lacerdismo, o elitismo, o conservadorismo e por que não dizer, o reacionarismo, estão lado a lado com a paulicéia desvairada e, não por outra razão, o Estadão e a Globo (em que pese seus interesses mais escusos junto ao BNDES) apóiam a privataria, o Serra e o FHC, por tabela.
O getulismo, com todos os seus desvios e erros, as classes mais pobres e carentes estão como nunca com Lula, o que não quer dizer que com Dilma.
A apelação da grande mídia, ao fim do primeiro turno, em favor de uma Marina que via solitária uma onda verde inexistente, não foi a seu favor, mas sim pró-segundo turno, o que levaria , como levou, seu candidato, o eleito da mídia, a uma contenda final.
E o eleito é Serra.
Eleito pelo primeiro poder da república: a chamada grande (sic!) imprensa, os escroques de plantão, os grandes formadores de opinião da zelites do Brasil.
Só não vê quem não quer: Lacerda=Serra, Getulio=Lula.............e a Dilma?
Esta, que seria a grande questão, não importa.
Até mesmo por interesse de um presidente que decidiu por um plebiscito que lhe é amplamente favorável (ou não teria a aprovação popular que tem...).
Ah!!!, dirá um Jabor, plenipotenciário representante da zelites, só os beócios e os nordestinos do bolsa-familia o aprovam!!!!!!
E haverá algo mais elitista que este conceito, pergunto?
Mas, erro ou não de Lula, em querer uma eleição na base do ele ou eu, ninguém sabe de Dilma!
Apenas que ela é quem o presidente quer.
Entre o atraso do lacerdismo/elitista e o novo(?)/populismo/getululismo, eis a questão......
Contudo, ninguém está se importando com isso....... contentam-se com mexericos retrógrados, discussões sobre aborto, homossexualismo e temas absolutamente tolos para quem raciocina, ainda que importantes para a patuléia católico-evangélico-pentecostal, whatever.
Por mim, pessoalmente, me basta saber que a zelites querem algo............ eu quero sempre o anseio da anti-elite, sempre e sempre, ainda que na dúvida.... meu acerto virá ou não pelo NÃO aos que sempre mandaram neste país, serei sempre senzala.

EU E O MAR

Por Lúcia Moreira*
A tábua das marés indica os horários de recuo do mar, que deixa a praia salpicada de lagoas, piscinas efêmeras onde as crianças correm para brincar. Às vezes, a memória recua no tempo e abre esses espaços. Penso na minha infância e na dos meninos, em Fortaleza. Lá recebi o diagnóstico de meu filho. Acabava de ser instalado na minha vida o varejão das urgências vitais, das necessidades incontestáveis, indigestas. De repente, pode acontecer qualquer coisa: um desmaio, uma crise. Vivo em prontidão para a dor, o que me impede de planejar o que não for imediato. Por que não, de repente, algo bom? A vida deixava de ser aquela caretice de desenhar um futuro alucinado e passava a ser uma arquitetura elaborada e construída na realidade.
Voltamos ao Rio para o tratamento. Às 7:45h de hoje, estávamos no portão do Pedro Ernesto, onde um comitê de greve recebia os pacientes. Uma greve! Antigamente, um grevista sozinho era uma assembléia, discurso e apoteose. Mas aqueles grevistas ali eram de outra espécie. Silentes, organizados, graves. Diria mais, diria que aqueles médicos e enfermeiros participam de nossa miserável, infeliz e muitas vezes, abjeta condição humana. Diria que nossas dificuldades são irmãs, sofre-se por não oferecer e não receber o serviço que mitigaria nossa dor comum e real.
Meu filho foi conduzido ao segundo andar para o tratamento. Os que ali estavam, aguardavam o atendimento dormindo ou cabisbaixos, em silêncio. Tinham sorte, tinham entrado. A médica não veio. Não ouvi uma palavra contra a greve, falta de tudo para todos. O hospital era uma solidão brutal de mil pessoas. Quando me apresentei na recepção e disse que meu filho iria ali diariamente, a senhora da limpeza disse: “seu filho deve ser um príncipe, agradeça a Deus”. Abençoou-me.
A experiência de uma doença grave nos dá uma certa consciência entre nós e os totalmente despossuídos, entre nós e os ricos, entre nós e nós mesmos, quando somos apenas o esquecimento dessas coisas que um dia nos arrastam e levam tudo de roldão. É uma lucidez dolorida.
Tristezas não pagam dívidas, dizia a minha avó. Aparentemente, a restauração da ordem começa pela sola dos pés. Andar atrás de trabalho, de novos médicos, de soluções. Mas a sensação lá no peito é a de que andamos na prancha e que precisamos urgentemente negociar com os piratas antes de alcançar o ponto onde a prancha bascula.
Ah, sim, ei de ganhar o mar. Fecho os olhos novamente e mergulho nessa gostosa saudade à beira da Baía de Guanabara, a casa que me principia e que será minha derradeira morada.
Não fomos atendidos. Ao sair do Hospital, nos deparamos com o Comitê. A enfermeira que cuida do meu menino abraçou-o longamente. Não é a greve furiosa da TV. Não foi isso o que eu vi. Pegamos um táxi e o táxi colocou uma distância progressiva entre mim e a lucidez, entre mim e a morte. Anoitece, e o mar recua. Vamos brincar muito essa noite.
Peço desculpas, minha amiga, por esse chatíssimo écrit de lourdeur, cuja única serventia é revelar minha impotência. Hoje eu sei que a vida não ensina nada a ninguém. A experiência vem de restringir nosso contato com a realidade e ampliar a análise desse contato, identificar a ficção ingênita de todas as coisas e amores e filhos e doenças. Encontrar a cura em nós mesmos. Um abraço terno e acolhedor.

* Lúcia Moreira é psicóloga, pesquisadora, amiga do mar, coordenadora-geral do "Mar Brasileiro em Rede"

4 de out de 2010

CANTINHO DOS LIVROS

OS TÍTULOS QUE TRAGO EM MIM

Por Vanessa Balula*

Alguém disse que somos resultado do que vivemos – eu diria, ainda, que somos muito um tanto de tudo o que lemos.
Quando pequena, eu acreditava que deveria ser fiel aos autores – e mais! – aos personagens que sentia terem ‘batido’ de forma diferente dentro de mim. Sabe? Protagonistas daquelas histórias que têm eco em nós.
E assim, lia e relia as mesmas obras zil vezes. Mesmo os novos títulos de autores já meus ‘conhecidos’ me pareciam intrusos. Por um tempo eu lhes tinha certa desconfiança. Em que espaço da minha estante entrariam? Os mais antigos mereciam destaque. Não pelas capas, mas pelas noites que adormecemos juntos. Eu e o ratinho que tinha medo do escuro e sua família vinham em capa dura em uma coleção do bom e velho Círculo do Livro. (agora veja!), acabo de me entregar... lembro de toda a história, cada cena, ilustração-por-ilustração e, sem nenhum registro do nome do autor ou de qualquer Gente Grande Estrangeira que tenha assinado para aquele livro existir. Eu podia jurar que se chamava “Quem tem medo do escuro?” – mas de um tempo que parece que a web não foi capaz de resgatar.)
Tá. Então cresci. Passei a saber os nomes dos autores. Ruth Rocha e seu ‘Reizinho Mandão’ e ‘Marcelo, marmelo, martelo’ com umas ilustrações arredondadas do tipo desenho gordinho de criança com olho arregalado em rascunhos de recreio; Álvaro Ottoni com ‘A história de um sorriso’ e ‘Quando o coração recebe visita’... E então veio Tistu, o menino do dedo verde de Maurice Druon. Foi nesse momento que comecei a me sentir uma leitora pronta. “Eu lia autores estrangeiros, afinal. E sabia quem era quem.” No alto dos meus 10 anos.
Encontrei Lygia Bojunga e ela me tomou com sua ‘Bolsa Amarela’, me fez bem-vinda à ‘Casa da Madrinha’ e me deixou ficar em seu ‘Sofá estampado’. Até hoje fiquei por lá e a Bolsa, bom, a Bolsa, a Raquel, o Galo, o Alfinete de Fralda, o Bolso Bebê, a Guarda-Chuva, a Linha Forte... seguem comigo em páginas, capa antiga e reedição, na estante e na cabeceira.
Cresci mais e vieram todos os grandes – Vinícius, o poetinha, camarada como ele só (!), me lembrando que já nos conhecíamos da Arca de Noé; Jorge Amado, que me apresentou sua doce e anarquista senhora dona do baile, Zélia Gattai; Fernando Pessoa, que me fez começar a entender que o mundo só gira graças ao bom e velho divã – o que seria de nós, cobertos de heterônimos e versões, se não fossem os terapeutas de ontem e hoje? E, todos, em muito boa companhia (!) – com Cecília, João Ubaldo, Marina Colassanti, Raquel de Queiroz, Drummond.
O tempo passou depressa demais – muito mais rápido do que fui capaz de dar conta de tudo o que gostaria de ler. Junto com a pressa uma sede de saber e conhecer e ouvir e saber mais e querer contar e ouvir contar – é da idade, ouvi dizer. Então nos últimos 10, 15 anos tive – quando não esperava (!) – alguns dos encontros mais mobilizadores em mim. Encontros definitivos com Adriana Falcão – tenho uma inveja fúcsia de cada linha! -, Inês Pedrosa, Câmara Cascudo, Afonso Romano, Cortázar, Astrid Lidgren, Jorge Luis Borges, Carmen Posadas, Antônio Cícero... e, ah... Manuel de Barros! Isso só pra citar quem gritou aqui do teclado – deixando tantos outros em silêncio na estante.
E assim a vida – ao menos a minha (!) passa cheia de páginas e capas e histórias e frases e cenas e nomes e rostos e traços que me ocupam, me falam, por vezes me calam, me tomam e fazem bagunça dentro de mim.

*Vanessa Balula, eu e minhas versões: agente literária, jornalista, roteirista, autora, publicitária. Paixão absoluta por papéis, histórias e ilustrações. Pra colorir a vida: Agência da Palavra e giz de cera.

2 de out de 2010

ROGAI POR NÓS

Silvia tinha sofrido um AVC no esplendor de seus 18 anos e agora com quase 40 encontrava-se entrevada, confinada a uma cadeira de rodas com dores intermitentes que fazia questão de suportar sem muitas queixas. E não se deixava abater.
Médium internacional, pessoas vinham de todo o mundo ouvir suas previsões. Cobrava caríssimo por cada Tarô lido, cada previsão acertada. Ironicamente seu baralho não previu o que iria acontecer com ela: através de uma amiga conheceu Diana, que a procurou profissionalmente, mas para Silvia, desde o primeiro momento, foi paixão arrebatadora. Estranhamente, já que nunca tivera experiências homossexuais antes de conhecer essa mulher. Diana ao contrário de Silvia ostentava uma beleza excepcional, sendo a pessoa mais animada e descontraída que eu já tive a oportunidade de ver. Radiosa também era sua personalidade: sempre risonha, amorosa e afetiva com todos.
Isso era o que ela mostrava externamente. Silvia com suas cartas logo descobriu o que aquelas atitudes escondiam. Diana era um poço de angústia, tristeza e carência. Poderíamos chamá-la de P.M.D., tinha fases de enorme euforia, seguidas por longas depressões. De natureza volátil irresponsável, nunca se podia confiar completamente nela. De índole promíscua, eram numerosos seus parceiros sexuais entre mulheres e homens. E sem problemas usava o sexo para conseguir o que desejava.
Silvia estava agora diante do maior desafio de sua vida e carreira. Eu a conhecia de fama e acabei tornando-me sua amiga. Acompanhei meio de perto o casamento das duas. Torcendo por Silvia. Aquela mulher merecia, depois de tudo que sofrera ser feliz. No começo, ambas pareciam ter vivido para enfim se encontrar. Encaixe perfeito. Mão na mão, olhos nos olhos, pura paixão. Fiquei tranqüila e feliz por ela. Até Diana que me fazia temer pelo casal, por conhecer seu caráter, estava aparentemente transformada. Acompanhava a namorada dedicadamente nas situações mais inusitadas, de palestras a festas. Sempre empurrando sua cadeira de rodas, ofertando a todos beleza e alegria.
Fiquei um tempo sem vê-las. Mas sabia através de amigos comuns que tudo continuava às mil maravilhas. Fiquei intrigada com a atitude de Diana. Não por muito tempo. Logo vim saber que as duas já não estavam mais juntas e que Diana agira como de hábito: usara Silvia para se sustentar de forma luxuosa, com seus hábitos exorbitantemente caros aproveitando para fazer um belo “pé de meias” que lhe deixaria tranqüila até o fim da vida se tudo corresse normalmente.
Mais: através de Silvia conheceu um francês e por ele se apaixonara. O final foi sinistro. Eu nunca vira uma pessoa tão aniquilada, perdida e sem rumo como Silvia. Ela fazia questão de esfregar na cara de todos o seu sofrimento. Como se fôssemos responsáveis por isso. Enquanto sabia-se que Diana em Paris exibia sua felicidade e iria lá morar, Silvia era o retrato vivo da paixão desabrida, sem saída, sem perspectiva. Desmoronada.
Mas eu quero sempre estar atenta às voltas que o mundo dá. A vida é fascinante! Um carrossel perfeito. O quem está em cima, de repente vê-se em baixo e vice-versa. Assim foi também aqui.
Pouco depois vim saber por fontes seguras que o tal francês não passava de um grande pilantra também e que o destino afinal, acertava suas contas com Silvia. Ele havia aplicado um golpe em Diana deixando-a só e sem um tostão.
Moral da história: ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão e ainda: você ainda acredita em ética e comportamento moral no mundo que vivemos? A vida nunca foi justa com ninguém. Por que seria com você ou eu?

29 de set de 2010

VEM MAIS NOVIDADE POR AÍ: CANTINHO DOS LIVROS

A agente literária Vanessa Balula inaugurará aqui no blog, em breve, o nosso CANTINHO DOS LIVROS. Contando lá do Sul, onde ela é uma das donas da Agência da Palavra, sua experiência com livros que leu, que está lendo e que virá a lançar. Estamos abrindo as portas para uma super profissional em literatura.  Para saber um pouco mais sobre seu trabalho é só acessar também o blog da Agência www.agenciadapalavra.blogspot.com.

CANTO DOS AMIGOS

VERDADE

Anna Maria Ribeiro

Aqueles que viveram os anos de chumbo certamente se lembrarão do filósofo e jornalista André Gorz. Seus livros eram proibidos por aqui e tê-los em casa constituía um grave delito, passível de prisão. Naquela época, este teórico da Revolução ainda não havia se voltado para ecologia, como fez anos mais tarde. Apenas dois livros haviam sido lançados em português antes do fatídico ano de 1969: “Estratégia operária e neocapitalismo” e “O socialismo difícil”. A partir daí pararam as edições, voltando a ser traduzido e publicado no Brasil somente em 1982. Sempre imagino quem seja o autor quando leio um livro. Não o aspecto físico dele. Mas ele mesmo, lá por dentro. André Gorz se revelara para mim enfarruscado e seco. Qual minha surpresa quando pelas mãos de minha filha, me chega um pequeno livro, o último que escreveu, intitulado “Carta a D.- História de um amor” . Não deve ser o mesmo Gorz, pensei. Um romance! Ele?! Minha filha esclarece: é ele mesmo, numa carta dirigida a sua mulher Dorine, em 2006, já bem velho. E me alerta: dá uma lida no primeiro parágrafo! E foi aí que me vi às voltas com um redemoinho de sensações entre as quais, vergonhosamente, percebi em mim a inveja! Muita inveja. Não resisto à tentação de provocá-la também nos homens e mulheres que me lêem e vou transcrevê-lo:
Você está para fazer oitenta e dois anos. Encolheu seis centímetros, não pesa mais do que quarenta e cinco quilos e continua bela, graciosa e desejável. Já faz cinqüenta e oito anos que vivemos juntos, e eu amo você mais do que nunca. De novo, carrego no fundo do meu peito um vazio devorador que somente o calor do seu corpo contra o meu é capaz de preencher.
Devorei o livro em pouco mais de duas horas e ele perdura há dias dentro de mim provocando sensações por vezes dolorosas. Gorz levou cinqüenta e oito anos para dizer a Dorine a mais importante das verdades: o que ela significou em sua vida. E não foi do significar sentimento que ele falou. Foi do significar da pessoa dela em tudo que fez, em tudo que se tornou, em tudo que viveu. Em cada momento importante e em outros sem qualquer importância ela tornou sua vida plena, apenas sendo. Presença constante, calor de corpo, silêncio risonho, aceitação e até discordância. Ele não teria sido ele sem ela. Que bom que ele pôde dizer, que bom que ela pôde ouvir. Mas raramente é assim. Falamos a verdade mas não A VERDADE. Não percebemos que é preciso falar, falar e falar exaustivamente do que realmente existe entre dois próximos para que se possa entender o seu significado. Não é o “discutir a relação”, imagina! Longe disto. É tão maior: é o ser de cada um para o outro, tornando-se si mesmo só porque existe o outro. Confusa a frase; tão simples e claro seu significado. Perdi meu pai e meu filho no espaço de um ano. Convívio de quarenta e quatro anos com o pai e de vinte e um anos com o filho. E nunca disse a eles o quanto sou e quem sou por causa deles. Por todos os momentos em que existentes me fizeram ser. Falei, sim, e muito, a mim mesma, mas eles já haviam partido. Não disse a eles. Quando Rogério se foi fiquei com seus livros. Ele lia muito e tinha o hábito de marcar com um lápis passagens que chamavam sua atenção, fazendo pequenos comentários. Devorei estas marcas. Era ele me falando, se mostrando. Algumas me surpreenderam. Não devia, não é? Afinal era meu filho e eu o conhecia. Será? Não sei. Conversávamos muito sobre tudo, menos sobre nós. Por que não nos dissemos esta verdade? Privilegiados Gorz e Dorine. Daí a inveja do que não fiz e não poderei mais fazer. Nenhum dos outros livros de Gorz, tão completos, tão esclarecedores, ao contrário do que eu pensava, conseguiu me mostrar o que neste mundo mais se carece. Este tão pequeno, tão singelo, me mostrou: a paz serena e interna pela verdade do que somos pelos outros que fazem a diferença. Se todos a tivessem dentro de si, transbordaria, não é? Como transbordou para Gorz. E que extraordinário efeito este transbordar poderia causar neste mundo tão maluco e violento! O subtítulo “uma história de amor” quem sabe assusta pelo que pode conter de piegas e “dejá vu”. No entanto a verdade de Gorz é inédita. Não há frase, palavra ou significado que não transpire esta verdade de que estou falando e que para mim é nova e revela um caminho que nunca trilhei. Caminho que espero conhecer daqui por diante na companhia de meus filhos e de meus amigos. Vão eles, creio, se surpreender, no início desta caminhada, mas quem sabe, com o tempo, percebam que a paisagem vale a pena. E então, quem sabe, a gente vai ser capaz de se dizer o que importa, antes que este Deus esquisito e misterioso que é o Tempo, nos impeça.
Se esta crônica tiver o poder de fazê-los ler o livro não leiam o posfácio antes de terminar a leitura. Nele se desvenda o final desta história de grande e especial amor. Final que me traz a sensação de estar faltando uma bem aventurança entre as conhecidas: Bem aventurados os que juntos falam da verdade um ao outro porque eles serão especiais aos olhos dos homens.