11 de out de 2010

EU E O MAR

Por Lúcia Moreira*
A tábua das marés indica os horários de recuo do mar, que deixa a praia salpicada de lagoas, piscinas efêmeras onde as crianças correm para brincar. Às vezes, a memória recua no tempo e abre esses espaços. Penso na minha infância e na dos meninos, em Fortaleza. Lá recebi o diagnóstico de meu filho. Acabava de ser instalado na minha vida o varejão das urgências vitais, das necessidades incontestáveis, indigestas. De repente, pode acontecer qualquer coisa: um desmaio, uma crise. Vivo em prontidão para a dor, o que me impede de planejar o que não for imediato. Por que não, de repente, algo bom? A vida deixava de ser aquela caretice de desenhar um futuro alucinado e passava a ser uma arquitetura elaborada e construída na realidade.
Voltamos ao Rio para o tratamento. Às 7:45h de hoje, estávamos no portão do Pedro Ernesto, onde um comitê de greve recebia os pacientes. Uma greve! Antigamente, um grevista sozinho era uma assembléia, discurso e apoteose. Mas aqueles grevistas ali eram de outra espécie. Silentes, organizados, graves. Diria mais, diria que aqueles médicos e enfermeiros participam de nossa miserável, infeliz e muitas vezes, abjeta condição humana. Diria que nossas dificuldades são irmãs, sofre-se por não oferecer e não receber o serviço que mitigaria nossa dor comum e real.
Meu filho foi conduzido ao segundo andar para o tratamento. Os que ali estavam, aguardavam o atendimento dormindo ou cabisbaixos, em silêncio. Tinham sorte, tinham entrado. A médica não veio. Não ouvi uma palavra contra a greve, falta de tudo para todos. O hospital era uma solidão brutal de mil pessoas. Quando me apresentei na recepção e disse que meu filho iria ali diariamente, a senhora da limpeza disse: “seu filho deve ser um príncipe, agradeça a Deus”. Abençoou-me.
A experiência de uma doença grave nos dá uma certa consciência entre nós e os totalmente despossuídos, entre nós e os ricos, entre nós e nós mesmos, quando somos apenas o esquecimento dessas coisas que um dia nos arrastam e levam tudo de roldão. É uma lucidez dolorida.
Tristezas não pagam dívidas, dizia a minha avó. Aparentemente, a restauração da ordem começa pela sola dos pés. Andar atrás de trabalho, de novos médicos, de soluções. Mas a sensação lá no peito é a de que andamos na prancha e que precisamos urgentemente negociar com os piratas antes de alcançar o ponto onde a prancha bascula.
Ah, sim, ei de ganhar o mar. Fecho os olhos novamente e mergulho nessa gostosa saudade à beira da Baía de Guanabara, a casa que me principia e que será minha derradeira morada.
Não fomos atendidos. Ao sair do Hospital, nos deparamos com o Comitê. A enfermeira que cuida do meu menino abraçou-o longamente. Não é a greve furiosa da TV. Não foi isso o que eu vi. Pegamos um táxi e o táxi colocou uma distância progressiva entre mim e a lucidez, entre mim e a morte. Anoitece, e o mar recua. Vamos brincar muito essa noite.
Peço desculpas, minha amiga, por esse chatíssimo écrit de lourdeur, cuja única serventia é revelar minha impotência. Hoje eu sei que a vida não ensina nada a ninguém. A experiência vem de restringir nosso contato com a realidade e ampliar a análise desse contato, identificar a ficção ingênita de todas as coisas e amores e filhos e doenças. Encontrar a cura em nós mesmos. Um abraço terno e acolhedor.

* Lúcia Moreira é psicóloga, pesquisadora, amiga do mar, coordenadora-geral do "Mar Brasileiro em Rede"

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