2 de out de 2010

ROGAI POR NÓS

Silvia tinha sofrido um AVC no esplendor de seus 18 anos e agora com quase 40 encontrava-se entrevada, confinada a uma cadeira de rodas com dores intermitentes que fazia questão de suportar sem muitas queixas. E não se deixava abater.
Médium internacional, pessoas vinham de todo o mundo ouvir suas previsões. Cobrava caríssimo por cada Tarô lido, cada previsão acertada. Ironicamente seu baralho não previu o que iria acontecer com ela: através de uma amiga conheceu Diana, que a procurou profissionalmente, mas para Silvia, desde o primeiro momento, foi paixão arrebatadora. Estranhamente, já que nunca tivera experiências homossexuais antes de conhecer essa mulher. Diana ao contrário de Silvia ostentava uma beleza excepcional, sendo a pessoa mais animada e descontraída que eu já tive a oportunidade de ver. Radiosa também era sua personalidade: sempre risonha, amorosa e afetiva com todos.
Isso era o que ela mostrava externamente. Silvia com suas cartas logo descobriu o que aquelas atitudes escondiam. Diana era um poço de angústia, tristeza e carência. Poderíamos chamá-la de P.M.D., tinha fases de enorme euforia, seguidas por longas depressões. De natureza volátil irresponsável, nunca se podia confiar completamente nela. De índole promíscua, eram numerosos seus parceiros sexuais entre mulheres e homens. E sem problemas usava o sexo para conseguir o que desejava.
Silvia estava agora diante do maior desafio de sua vida e carreira. Eu a conhecia de fama e acabei tornando-me sua amiga. Acompanhei meio de perto o casamento das duas. Torcendo por Silvia. Aquela mulher merecia, depois de tudo que sofrera ser feliz. No começo, ambas pareciam ter vivido para enfim se encontrar. Encaixe perfeito. Mão na mão, olhos nos olhos, pura paixão. Fiquei tranqüila e feliz por ela. Até Diana que me fazia temer pelo casal, por conhecer seu caráter, estava aparentemente transformada. Acompanhava a namorada dedicadamente nas situações mais inusitadas, de palestras a festas. Sempre empurrando sua cadeira de rodas, ofertando a todos beleza e alegria.
Fiquei um tempo sem vê-las. Mas sabia através de amigos comuns que tudo continuava às mil maravilhas. Fiquei intrigada com a atitude de Diana. Não por muito tempo. Logo vim saber que as duas já não estavam mais juntas e que Diana agira como de hábito: usara Silvia para se sustentar de forma luxuosa, com seus hábitos exorbitantemente caros aproveitando para fazer um belo “pé de meias” que lhe deixaria tranqüila até o fim da vida se tudo corresse normalmente.
Mais: através de Silvia conheceu um francês e por ele se apaixonara. O final foi sinistro. Eu nunca vira uma pessoa tão aniquilada, perdida e sem rumo como Silvia. Ela fazia questão de esfregar na cara de todos o seu sofrimento. Como se fôssemos responsáveis por isso. Enquanto sabia-se que Diana em Paris exibia sua felicidade e iria lá morar, Silvia era o retrato vivo da paixão desabrida, sem saída, sem perspectiva. Desmoronada.
Mas eu quero sempre estar atenta às voltas que o mundo dá. A vida é fascinante! Um carrossel perfeito. O quem está em cima, de repente vê-se em baixo e vice-versa. Assim foi também aqui.
Pouco depois vim saber por fontes seguras que o tal francês não passava de um grande pilantra também e que o destino afinal, acertava suas contas com Silvia. Ele havia aplicado um golpe em Diana deixando-a só e sem um tostão.
Moral da história: ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão e ainda: você ainda acredita em ética e comportamento moral no mundo que vivemos? A vida nunca foi justa com ninguém. Por que seria com você ou eu?

Um comentário:

  1. Rosario, que tema incrível esse sobre o poder e a justiça de nossas relações. Diante do enigma da sorte, queremos sempre dar um sentido ao sofrimento e pouco avaliamos os nossos contratos de convívio, as circunstâncias nas quais nasceram ou se modificaram. Para uma felicidade não cumprida temos a tábua rasa dos valores morais, que omitem o gozo anterior. A traição é hedionda, na há dúvida, mas ela já se encontra lá na avaliação que modela e modera as nossas ações e expectativas em relação ao outro. O modo escravo de valoração apaga a relação, apaga o outro. O nosso pensamento é negocial, imagina equivalências (afetivas, sociais, intelectuais). Mas a realidade acachapante e irremovível aparece, em seu ciclo, na grande roda de uma fortuna inescapável para todos nós. De um jeito ou de outro, lidamos com os descumprimentos. Eis a beleza desse conto que nos trouxe. Forte abraço, Lucia

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