29 de mar de 2010

CARTA FORA DO BARALHO

Me tiraram da roda. Subitamente só. O dinheiro acabou, as festas idem. Me tiraram do baralho.
A solidão, companheira. Falsos amigos só fazem a roda girar.
Porra, não tenho mais dinheiro, não sou mais jovem, nunca gostei de vida social, caralho. A quem posso interessar? Não faço a roda girar. Amigos... Serão?
Envelhecer é não acreditar em mais nada. Por que alguém gostaria de mim?
Sei quem: meu cachorrinho. É de coração que tem por mim amor incondicional. Merda, o resto é o resto.

25 de mar de 2010

ALMA SOLITÁRIA

Vago pelas ruas
Sem esperança
Solidão irredutível
Onde ele estará?
Onde eu estou?
Não saber...
Melhor assim
Cegamente.
Esbarro em todos
Será de propósito?
Caguei.
Frio na medula
Vapt, vupt
E tudo acabaria
Esta agonia
Este medo
Sair correndo daqui
Fazer isso enquanto
Ainda dá
Qualidade de ser
Humano

22 de mar de 2010

NASCE UM ESCRITOR

SOLIDÃO DESCOBERTA

Você tem cinquenta anos.... ok, vai, sessenta, por aí...você está só.....inapelavelmente só.
A solidão nos atinge, e chega junto e por vezes nos aflige até a infinitude do orgasmo (quem disse que ela e ruim?), no momento em que você olha pro lado e se vê sozinho.
As vezes, você olha e vê seu homem, sua mulher, não importa, mas você está absolutamente a deriva...ninguém vai te salvar.
Por mais que te gostem, todos serão impotentes.
Nada, sequer aquela gosma nebulosa, o supostamente deus, a alma ou o que seja, o etéreo, nem ele (ela) vai te fazer levantar das trevas.
Ainda bem.
Você penetrou no mundo dos sábios e não se tocou.....
Sabe por quê? Por que alguém deveria estar junto pra te dizer isso. Mas, não há ninguém.
Aquela moça de outro dia, gostosa, ou o gato musculoso, ai, ai, são uns asnos.
Nunca te disseram que você existia... ainda bem, vindo deles soaria risível.
E é por isso que você está só, perdido, abandonado, decaído.
Solidão, algo abstrato. Comparo-a com o miasma de nós mesmos, o nosso vômito, o gozo lindo, mas imundo.
Quer saber? Nem bom, nem ruim, apenas a puta da vida!
Um dia você acorda e vê (se vê em) alguém. Será mentira. Creia! O que está ao seu lado nada será além do ectoplasma de si mesmo. Senão, lá não estaria. A gente só aceita aquilo que nos se assemelha, como a ameba divina (leiam a bíblia!).
Adão, Caim, Eva e que tais nos esperam. Nas estórias em quadrinhos.
Jamais busque refúgio, imploro, a não ser em você mesmo... a causa não e nobre!
Por isso, queridos, viva! , vivam a solidão. Ou morram nela.
Ninguém vai saber.
Victor Costa Rodrigues

15 de mar de 2010

Ok

Ela era assim: adorava assinalar com enormes Oks as tarefas concluídas, levemente recostada, empunhando a agenda, caneta vermelha na mão direita, congratulando-se pela eficiência. E também adorava listas: o que comprar, trocar. A vida parecia passar mais fácil e rápida, assim. Na ginástica, enquanto pedalava, folheava as revistas que o marido recebia mensalmente, à procura do que conversar na roda de amigos –devia unir o útil ao agradável. Uma pequena toalha para o suor. Não podia, sob qualquer hipótese, borrar a maquiagem. Luva para os pesos. As unhas eram uma preocupação. Depois que se aquecia, dispunha a pensar na vida: “So far, so good”. O que poderia mais pedir a Deus? Bastava olhar à sua volta. Coitadas! Patéticas figuras aquelas meninas sujas em seus collants velhos, corpos suados, aqueles bailarinos fedorentos. Nauseava, tinha ímpetos de vômito, um horror!
Pelo ar tudo é transmissível. Até de Raul sentia medo. Queria que usasse o preservativo, a camisinha, mas como explicar? Sabia das traições. Aquilo não lhe causava mossa. De que outra maneira se pode manter um casamento por tanto tempo? Mas não podia deixar claro que aceitava as ocasionais fugidas do marido. Como se prevenir?
Olhando-se no espelho, apesar do suor insistente, das ridículas gotículas, sentia-se quase perfeita. O corpo com tudo no lugar e mais enxuto do que o de qualquer moça. E as malhas? Todas ton-sur-ton. Comprara em Paris, nas viagens feitas com Raul. Não, realmente estava bem, estava muito bem. Cometeria um pecadilho: admitiria estar o máximo. No momento, não podia pretender mais de si mesma. Nas pequenas rugas de expressão, tinha dado um jeitinho. Não um lifting total, somente puxadinhas aqui e ali. Certamente não aparentava sua verdadeira idade. Tinha problemas como qualquer mortal, claro! Mas as pessoas fazem das dificuldades um bicho-de-sete-cabeças. Ela, não! Enxergava as coisas como de fato eram, e as equacionava. Descobria saídas. “Só para a morte não há solução”. Falar em morte fazia-a lembrar da irmã, tadinha, nas últimas. Este sim, um problema objetivo a ser enfrentado num curto, brevíssimo período, entre hoje e amanhã. Jane estava em coma.
Dorothy bem que a alertara inúmeras vezes. Tinha até –horror dos horrores!- sido obrigada a conversar seriamente sobre o assunto –em vão. A irmã nunca fizera qualquer esforço para largar o maldito vício. “Sua alma, sua palma”. Tornando curta uma longa história: com quem ficaria o diabo da criança? Com ela, óbvio. Afinal, eram só as duas: Jane e ela, ambas filhas do mesmo pai e mãe. Ele, inglês, a mãe, brasileira, de Pernambuco. Certamente havia puxado ao pai naquilo que os ingleses têm de melhor: objetividade e determinação. Já a irmã não tivera igual sorte. Sobrava a filha. A criança, na verdade, já era uma moça, algo despido de significado para Dorothy. Não tendo filhos, classificava menores de trinta anos segundo claras faixas etárias. Quando bebês, eram monstrinhos desagradáveis e invasivos que só sabiam chorar durante a noite –verdadeiro martírio. Depois dos cinco anos, até que se tornavam engraçadinhos, quando arrumados e muito, mas muito bem educados –gostava quando as amigas os mostravam assim, na sala, para dar boa-noite. Daí em diante, melhor esquecê-los dentro de uma gaveta, e só abri-la muito mais tarde.
Na verdade, Fabíola –mas que nome mais besta Jane arrumara para a menina! Nome de princesa européia para criança brasileira? Era a cara dela- chegaria nos próximos dias. Tivera que concordar, não havia mais nada a fazer além de realizar o prejuízo, como dizia Raul. Dorothy, como sempre, tentaria fazer do limão uma limonada, imaginando, inicialmente, que a menina faria bem ao casal; pois, pelo menos, seria uma companhia. Santa ingenuidade! Logo eles, que haviam optado por não ter filhos.
Foi como se estivesse sentada no camarote de qualquer teatro infantil da roça: viu-se obrigada a assistir à mudança da sobrinha, empunhando armas e bagagens para seus domínios que, desse momento em diante, começaria a reinar. “O futuro a Deus pertence”, suspirou resignada. Fabíola não estava só numa idade impossível. Ela também estava revoltada com a morte da mãe. Tivera um choque ao revê-la depois de tanto tempo: desenvolvida demais para sua idade e com uns modos que... Deus meu! E os hábitos? Dormia até as tantas, não tinha hora para nada! E os trajes? Andava pelo meio da casa como se estivesse em seu quarto, só de calcinha e camiseta, quando não de biquíni de praia. Já estava cansada de tanto lhe chamar a atenção. E ela: “Tá, tia! Falou, tia! Saquei, tia!”. Enfim, um verdadeiro inferno! Sabia ser uma pessoa forte, mas já estava para entregar os pontos.
Fabíola percebia os olhares que Raul lhe lançava. Cego, ele nunca fora! Situação insustentável, aquela. Assim, havia começado a beber: para distensionar, para tentar ver as coisas sob uma ótica melhor; na verdade, para esquecer que aquilo tudo estava acontecendo bem embaixo do seu nariz, e ela impotente, tentando parecer calma e alegre. Um uísque a mais, que mal poderia fazer? Ultimamente, andava tão confusa!... Tentou organizar sua cabeça começando pelo começo, como gostava de fazer, encaixando peça por peça –nos últimos tempos isso se tornara difícil. Os olhares de Raul não eram meramente sacanas, eram apaixonados. Delicadezas demais para um tio –ainda mais um tio torto. Dorothy sabia que Fabíola era sonsa. Mas, no instante seguinte em que julgava a sobrinha, sentia-se maldosa. A impressão se desfazia, eram só brincadeiras ingênuas da adolescência.
Serviu-se de mais um uísque. O comportamento de Raul era desconcertante. Ela nunca o supusera atraído por adolescentes, não era esse seu perfil. Precisava contar com seu sangue frio, agora mais do que nunca. Não podia fracassar.
Foi num flash, grande insight, que percebeu o quanto aquela situação lhe era conveniente, vinha ao encontro de seus desejos, derrubava qualquer censura. “Ousadia” era agora sua palavra de ordem, a mola mestra. Já não dormia todas as noites, passava em claro, cismando. Os momentos em que estava só, eram perfeitos para a mulher que ela agora via nascer. Ansiava por eles. Sentia prazer. Vagos remorsos, vaguíssimos... Depois, procurava por homens, qualquer um servia. Ali mesmo, em frente ao prédio: ali, sentia prazer em dobro. Sobretudo ao imaginar-se observada. Fingia ser outra, sabendo-se ser ela mesma, nesse mundo secreto, subterrâneo. Os porteiros vigilantes observavam-na de longe. Ela, que de início não escolhia, tornou-se seletiva: dava preferência aos negros. E, ironia das ironias, aos cabeças-chatas, paus-de-arara em geral –sendo pernambucanos, morria! Incitava-os a falar na hora “H”. Quando estava chegando ao clímax, berrava: “Fala, negão! Esporra em mim, seu pernambucano de merda!”. Sabendo-se assistida, esmerava-se, transformando o sexo escapista e solitário num show pornô. Virada do avesso, maldizia esses abjetos vibradores humanos. Maldizia-os, maldizendo-se. Mesmo ainda dando Oks nas tarefas concluídas, Dorothy era um beija-flor suspenso em seu vôo.

11 de mar de 2010

POR NÃO ESTAREM DISTRAÍDOS

Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que, por admiração, se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.

Clarice Lispector

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5 de mar de 2010

SALVE ÀS MULHERES

“É. Eu me acostumo, mas não me amanso.”

                                                                   (Clarice Lispector)

UMA HOMENAGEM A TODAS AS MULHERES, NÃO SÓ PELO DIA 08 DE MARÇO,
MAS POR TODA A VIDA...

4 de mar de 2010

EU

De libertina a casta menina.
A criança que fui de novo agora.
Novamente
Para meu horror ou deleite
Minha infância tangível
Por milagre
A pequena criança
Disforme
Deformada
Novamente
Vou, volto, eu não me pertenço
Vago, solta no espaço
Mórbida sensação de vazio
Mórbido sentimento, este.
Pulsar, coisas respiram
O impossível acontece
Sou menina e sou mulher
Só a mim pertenço

NÓS DOIS

Ocorreu de repente, mas com a força de uma barragem que se rompe e inunda tudo a seu redor. Só posso dizer que não deu para segurar.
Alguém segura a força de uma cachoeira? Sei que teve a força e a beleza de um desses fenômenos da natureza.
Foi assim, quanto te vi pela primeira vez o tempo parou e não havia o antes nem o depois, só nós dois e o mundo girando muito, girando rápido, girando mais.
Aquele encontro selaria nosso destino de uma forma que só séculos depois iríamos poder avaliar.

1 de mar de 2010

PÂNTANO

Vampira é o que eu deveria ser para me dar bem na vida.
Naquela manhã além de não abrir os olhos não consegui nem mexer os dedos. Bem, banho já não tomava há uma semana ou mais. E levantar da cama fazia séculos...
A depressão chega de mansinho e é assim que se instala para não mais sair. Ao menos no meu caso.
A suprema felicidade é dormir ao lado do meu cachorrinho e quando acordo, tomo as outras bolas para dormir novamente. Só consigo sair dessa, botando as vísceras pra fora e anfetamina pra dentro.
Tudo é razão pra minha depressão.
Se eu tentasse fingir felicidade como tantos talvez não estivesse tão mal. Eu deprimo por estar viva, para mim é razão mais que suficiente, existir.
Minha família, eu, meu fracasso eterno, nunca ter dado certo em nada. Tudo isso é suficiente.
Só viver é a mais forte razão.
Faz séculos que estou assim, já procurei ajuda e tentei, mas nenhuma delas sequer me deu alívio momentâneo.
No final, desisti. Duas coisas me aliviam dessa angústia que me parece eterna. Os remédios que me afastam da realidade e meu cachorrinho, que é só amor, amor incondicional.
Com o resto das pessoas comecei a me transformar em um ser cruel. Cruel como se fosse delas a culpa por este estado de coisas.
A anfeta às vezes me aliviava um pouco. Mas não era e nunca foi minha droga preferida. Minha droga mesmo são os remédios para dormir.
Foi então que me senti sem salvação e comecei a pensar em saídas para mim.
A mais óbvia era me matar. Mas tinha que ser um suicídio certeiro. Eu não podia errar, sob pena de ser ridicularizada, por uma morte mal sucedida.
Todas as formas me pareciam com algum inconveniente.
Tenho uma amiga psiquiatra, e das boas, que me confessou conhecer uma mistura de remédios que não tem errada. Agora o que me alivia por uns momentos é a possibilidade de acabar com tudo finalmente então, ter paz e descanso eternos.