15 de mar de 2010

Ok

Ela era assim: adorava assinalar com enormes Oks as tarefas concluídas, levemente recostada, empunhando a agenda, caneta vermelha na mão direita, congratulando-se pela eficiência. E também adorava listas: o que comprar, trocar. A vida parecia passar mais fácil e rápida, assim. Na ginástica, enquanto pedalava, folheava as revistas que o marido recebia mensalmente, à procura do que conversar na roda de amigos –devia unir o útil ao agradável. Uma pequena toalha para o suor. Não podia, sob qualquer hipótese, borrar a maquiagem. Luva para os pesos. As unhas eram uma preocupação. Depois que se aquecia, dispunha a pensar na vida: “So far, so good”. O que poderia mais pedir a Deus? Bastava olhar à sua volta. Coitadas! Patéticas figuras aquelas meninas sujas em seus collants velhos, corpos suados, aqueles bailarinos fedorentos. Nauseava, tinha ímpetos de vômito, um horror!
Pelo ar tudo é transmissível. Até de Raul sentia medo. Queria que usasse o preservativo, a camisinha, mas como explicar? Sabia das traições. Aquilo não lhe causava mossa. De que outra maneira se pode manter um casamento por tanto tempo? Mas não podia deixar claro que aceitava as ocasionais fugidas do marido. Como se prevenir?
Olhando-se no espelho, apesar do suor insistente, das ridículas gotículas, sentia-se quase perfeita. O corpo com tudo no lugar e mais enxuto do que o de qualquer moça. E as malhas? Todas ton-sur-ton. Comprara em Paris, nas viagens feitas com Raul. Não, realmente estava bem, estava muito bem. Cometeria um pecadilho: admitiria estar o máximo. No momento, não podia pretender mais de si mesma. Nas pequenas rugas de expressão, tinha dado um jeitinho. Não um lifting total, somente puxadinhas aqui e ali. Certamente não aparentava sua verdadeira idade. Tinha problemas como qualquer mortal, claro! Mas as pessoas fazem das dificuldades um bicho-de-sete-cabeças. Ela, não! Enxergava as coisas como de fato eram, e as equacionava. Descobria saídas. “Só para a morte não há solução”. Falar em morte fazia-a lembrar da irmã, tadinha, nas últimas. Este sim, um problema objetivo a ser enfrentado num curto, brevíssimo período, entre hoje e amanhã. Jane estava em coma.
Dorothy bem que a alertara inúmeras vezes. Tinha até –horror dos horrores!- sido obrigada a conversar seriamente sobre o assunto –em vão. A irmã nunca fizera qualquer esforço para largar o maldito vício. “Sua alma, sua palma”. Tornando curta uma longa história: com quem ficaria o diabo da criança? Com ela, óbvio. Afinal, eram só as duas: Jane e ela, ambas filhas do mesmo pai e mãe. Ele, inglês, a mãe, brasileira, de Pernambuco. Certamente havia puxado ao pai naquilo que os ingleses têm de melhor: objetividade e determinação. Já a irmã não tivera igual sorte. Sobrava a filha. A criança, na verdade, já era uma moça, algo despido de significado para Dorothy. Não tendo filhos, classificava menores de trinta anos segundo claras faixas etárias. Quando bebês, eram monstrinhos desagradáveis e invasivos que só sabiam chorar durante a noite –verdadeiro martírio. Depois dos cinco anos, até que se tornavam engraçadinhos, quando arrumados e muito, mas muito bem educados –gostava quando as amigas os mostravam assim, na sala, para dar boa-noite. Daí em diante, melhor esquecê-los dentro de uma gaveta, e só abri-la muito mais tarde.
Na verdade, Fabíola –mas que nome mais besta Jane arrumara para a menina! Nome de princesa européia para criança brasileira? Era a cara dela- chegaria nos próximos dias. Tivera que concordar, não havia mais nada a fazer além de realizar o prejuízo, como dizia Raul. Dorothy, como sempre, tentaria fazer do limão uma limonada, imaginando, inicialmente, que a menina faria bem ao casal; pois, pelo menos, seria uma companhia. Santa ingenuidade! Logo eles, que haviam optado por não ter filhos.
Foi como se estivesse sentada no camarote de qualquer teatro infantil da roça: viu-se obrigada a assistir à mudança da sobrinha, empunhando armas e bagagens para seus domínios que, desse momento em diante, começaria a reinar. “O futuro a Deus pertence”, suspirou resignada. Fabíola não estava só numa idade impossível. Ela também estava revoltada com a morte da mãe. Tivera um choque ao revê-la depois de tanto tempo: desenvolvida demais para sua idade e com uns modos que... Deus meu! E os hábitos? Dormia até as tantas, não tinha hora para nada! E os trajes? Andava pelo meio da casa como se estivesse em seu quarto, só de calcinha e camiseta, quando não de biquíni de praia. Já estava cansada de tanto lhe chamar a atenção. E ela: “Tá, tia! Falou, tia! Saquei, tia!”. Enfim, um verdadeiro inferno! Sabia ser uma pessoa forte, mas já estava para entregar os pontos.
Fabíola percebia os olhares que Raul lhe lançava. Cego, ele nunca fora! Situação insustentável, aquela. Assim, havia começado a beber: para distensionar, para tentar ver as coisas sob uma ótica melhor; na verdade, para esquecer que aquilo tudo estava acontecendo bem embaixo do seu nariz, e ela impotente, tentando parecer calma e alegre. Um uísque a mais, que mal poderia fazer? Ultimamente, andava tão confusa!... Tentou organizar sua cabeça começando pelo começo, como gostava de fazer, encaixando peça por peça –nos últimos tempos isso se tornara difícil. Os olhares de Raul não eram meramente sacanas, eram apaixonados. Delicadezas demais para um tio –ainda mais um tio torto. Dorothy sabia que Fabíola era sonsa. Mas, no instante seguinte em que julgava a sobrinha, sentia-se maldosa. A impressão se desfazia, eram só brincadeiras ingênuas da adolescência.
Serviu-se de mais um uísque. O comportamento de Raul era desconcertante. Ela nunca o supusera atraído por adolescentes, não era esse seu perfil. Precisava contar com seu sangue frio, agora mais do que nunca. Não podia fracassar.
Foi num flash, grande insight, que percebeu o quanto aquela situação lhe era conveniente, vinha ao encontro de seus desejos, derrubava qualquer censura. “Ousadia” era agora sua palavra de ordem, a mola mestra. Já não dormia todas as noites, passava em claro, cismando. Os momentos em que estava só, eram perfeitos para a mulher que ela agora via nascer. Ansiava por eles. Sentia prazer. Vagos remorsos, vaguíssimos... Depois, procurava por homens, qualquer um servia. Ali mesmo, em frente ao prédio: ali, sentia prazer em dobro. Sobretudo ao imaginar-se observada. Fingia ser outra, sabendo-se ser ela mesma, nesse mundo secreto, subterrâneo. Os porteiros vigilantes observavam-na de longe. Ela, que de início não escolhia, tornou-se seletiva: dava preferência aos negros. E, ironia das ironias, aos cabeças-chatas, paus-de-arara em geral –sendo pernambucanos, morria! Incitava-os a falar na hora “H”. Quando estava chegando ao clímax, berrava: “Fala, negão! Esporra em mim, seu pernambucano de merda!”. Sabendo-se assistida, esmerava-se, transformando o sexo escapista e solitário num show pornô. Virada do avesso, maldizia esses abjetos vibradores humanos. Maldizia-os, maldizendo-se. Mesmo ainda dando Oks nas tarefas concluídas, Dorothy era um beija-flor suspenso em seu vôo.

3 comentários:

  1. Que beleza de texto!
    Continue.

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  2. GOSTEI MUITO DO TEXTO OK - TÃO BEM ESCRITO QUE PARECIA UM FILMINHO A "COROA" NA ACADEMIA... CONHEÇO TANTAS ASSIM !!! KIKI

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