27 de set de 2010

CANTO DOS AMIGOS

MÃOS DADAS


Outro dia, caminhando no Parque da Cidade, vi um casal de idosos, lado a lado, lendo livros, totalmente absortos e, de certa forma, intui que afetivamente estavam de mãos dadas. Um amparava ao outro em todos os sentidos possíveis, compartilhando emoções, estórias e vivências. Persegui com o olhar até que, cortando a cena, vi uma jovem mãe, com seu filho, de calção azul, pedalando uma bicicleta vermelha, começando a aprender a seguir sozinho mas ainda de mãos dadas. Parei e comecei a tentar descobrir, ansioso, também um outro casal de mãos dadas, o que confesso foi demorado. Eram muito jovens deveriam ter lá os seus 21 anos e a mulher estava grávida. Será este o destino das mãos dadas? Quando somos pequenos (princípio), no ápice do amor (meio), e no entardecer do carinho (fim)? Então também as mãos dadas têm o seu ciclo vital, como qualquer outra ser vivente? Que pena, romanticamente eu pensava que talvez as mãos dadas escapassem desta cruel sina da realidade. Mas, para minha paz, encontrei no Drummond a resposta e até imaginei que os idosos estivessem lendo este poema:

Mãos Dadas - Drummond
Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros
Estão taciturnos, mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considere a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história.
Não direi suspiros ao anoitecer, a paisagem vista na janela.
Não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida.
Não fugirei para ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.
João Siqueira

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