8 de set de 2010

TIM TIM!

Me chamo Cristal, quer dizer, isto foi um apelido que deram. Meu verdadeiro nome é Cristiane. Vim de uma família de lavradores do Sul. Pequenos lavradores. Minha família era pobre, mas tinha dignidade e honestidade... todos esses princípios morais que hoje não se usa mais. Todos dizem que sou bonita e deveria ter virado modelo, manequim como tantas outras moças lá do Sul. Mas a vida da gente nos reserva tantas surpresas! Conheci Alfredo ainda garotinha, numa festa em Blumenau onde ele tinha ido a passeio. Eu era quase uma menina. Ele se apaixonou por mim e foi conversar com meu pai, dizendo quem era e que suas intenções eram sérias. Pretendia se casar comigo, se papai não se opusesse. Papai vislumbrando uma vida melhor pra mim, concordou. Eu vislumbrando o Sul maravilha, topei. Mal sabia o que me esperava...
Minha profissão foi cuidar do Alfredo. Por vinte anos me dediquei a ele, agüentando seu mau-humor, suas grosserias e engolindo tudo, sem brigar. Sei lá, de alguma forma acho que eu lhe era grata por me dar uma casa, me feito ser sua mulher legítima. São coisas que eu prezo e de mais a mais essa foi minha formação: ser honesta e íntegra foi o que meu pai me ensinou.
Sofri muito esse tempo todo, chorava sozinha em meu quarto. Apesar disso não me deixei parar no tempo. Estudei muito, li à beça e fiz inúmeros cursos. Sempre fui ligada, Alfredo era tão ciumento que eu tinha que ter as aulas em casa, embora isso custasse o dobro. Ele não se importava porque estava milionário. Tinha uma banca de advocacia, quem conhece esses profissionais sabe do que estou falando. Mas foi correto comigo, como não tinha herdeiros, deixou tudo pra mim.
Quando ele morreu correu o inventário. Sem opositores, logo eu estava milionária. E me vi, da noite pro dia, sem saber o que fazer dessa fortuna toda. Logo, logo chegaram os “amigos”do Alfredo para me ensinar o que fazer do dinheiro. Posso ser interiorana, mas não sou burra. Nunca fui tão paquerada em toda a minha vida. Espertalhões, conheço essa laia toda. Através do Alfredo eu aprendi advocacia. Ha-ha.
Consultei a única pessoa no mundo que eu tinha confiança: papai. Ele me pediu um tempo pois iria falar com seu gerente e logo me daria resposta. Papai pode ser bronco, ter passado a vida com a mão na terra, mas é muito inteligente e sábio, coisa que hoje é matéria rara. Seu gerente logo abriu uma conta em meu nome na Espanha e me aconselhou a só gastar os juros, que mesmo eu morando fora daria pra viver super bem. Pensei em Madrid porque conhecia de cor seus quadros, seu cinema, e adorava sua música. Entre os cursos que fiz um foi aula de canto. E se eu podia escolher, por que não Madrid? De noite acordava sonhando, me via cantando em boites pequenas música brasileira.
Deus meu, eu agora era livre e sabia o quanto isso havia me custado. Depositei um bom dinheiro na conta da minha família que eram as únicas pessoas a quem eu era ligada. Tudo para mim será novo. Vou olhar as coisas como se fosse pela primeira vez, porque de fato é assim.
Eu não tive adolescência, mal tive infância trabalhando na lavoura. Meu casamento com Alfredo foi quase uma escravatura. Não. Foi uma escravidão de fato.
Pisarei no chão como os primeiros astronautas pisaram na Lua. Dá até medo. Será uma emoção após a outra. Tenho chorado muito, não sei se de felicidade ou tristeza. É tudo isso misturado. Agora de fato começarei a viver.
Quando estiver a bordo da primeira classe super luxo de um jato qualquer, eu que nunca saí do Sul ou do Rio, tomando meu champagne pra lá de merecido, lembrarei e hei de conseguir rir muito, pensando como o destino as vezes pode ser sábio, nas voltas que o mundo dá.
Peguei outro dia entre meus guardados essas anotações: Sem olhar para trás ir para uma cidade estrangeira de preferência onde não se conheça a língua. Me perder entre desconhecidos que amigos se tornarão.Sentir a angústia do não existir, existindo. Farei tudo minuciosamente ser mais uma na multidão e adquirir uma nova “persona”. Mas o melhor de tudo será abandonar o meu antigo eu, minha casa e tudo que vivi até então. Poder recomeçar do zero.
Afinal isso foi por mim sonhado tantas vezes, cada briga que tinha com Alfredo eu engolia os desaforos ouvidos, sabendo que um dia isto teria um fim.
Esse dia chegou finalmente: Movida madrileña, estoy a camiño! Sempre fui louca por Almodóvar! Tim, tim!

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