19 de jul de 2010

A VOZ

A voz sabia absolutamente tudo, até que eu cometera um assassinato. “Você não me conhece, mas eu sei absolutamente tudo sobre você.” Era uma voz anasalada e estava claramente no viva voz, talvez pra que outras pessoas pudessem participar do que ela dizia. O viva voz produzia um eco.
- Você matou uma pessoa, pois não prestou socorro à vítima. – Dito isto, desligou.
Chequei o telefone, era um número privado, impossível descobrir.
Eu acabara de falar com minha irmã ao telefone por isso ter atendido tão displicentemente. De novo o telefone tocou... é terrível, eu sabia que deveria ser a mesma pessoa. Mas a curiosidade fez com que eu, como um imã, como se a minha mão não tivesse dono, o atendesse. A mesma voz cavernosa que parecia sair de algum lugar longínquo:
- E o Cláudio, como está ele?
Ouvi uma pausa seguida de um suspiro
Chequei outra vez o número, agora ligavam de um celular.
Eu estava completamente confusa. Da primeira vez, a voz falava que eu cometera um crime, agora falava de meu marido. Era uma voz de mulher. Seriam amantes?
O problema era que a voz estava absolutamente certa em ambos os casos. Certa vez atropelei uma pessoa na Rio - Petrópolis e não tive coragem de descer para prestar socorro. Só não sabia que a pessoa havia morrido. E o meu marido via de regra me traía com qualquer secretária mais bonitinha que via pela frente.
Mudei de número, a mesma coisa. Coloquei bina e descobri que a voz trocava de número sempre, ou ligava de diferentes lugares. Ela tudo sabia sobre mim.
Tentei usar de todos os recursos: não atendia, tirava o telefone do gancho, assim que recolocava, ele tocava. Ligava de celular, de fixo, pro meu trabalho, pra minha casa... Eu estava perdendo a sanidade. Emagrecia a olhos vistos. Descobri que ninguém na minha família estava levando a sério o que estava se passando. Isso só fazia aumentar meu medo de estar enlouquecendo, mesmo. Meu pai acabara de falecer, comecei a achar que aquela voz era encomendada por ele - a única pessoa que de fato me entendia – para depois entrar em contato comigo.
As pessoas me tratavam como louca, elas pensavam que eu podia ter perdido um pouco da razão, mas não sabiam que eu guardava muita sanidade ainda. Comecei a achar que aquilo tudo eram fenômenos mediúnicos. Eu sabia que para me comunicar com outra dimensão, eu deveria me abster do contato com as pessoas desta esfera.
Comecei a ouvir pessoas no andar de cima, onde não mora ninguém, só poderiam ser as entidades.
As vozes que agora eu ouvia me falavam em vários idiomas, eu tinha que escrever, traduzindo todas. Alguém confiava em mim. Os móveis rangiam à minha passagem, quase tudo estalava. Não tinha problema, eu estava preparada para o que fosse. Mesmo quando vieram me buscar para a internação não ofereci resistência. A minha missão superava tudo isso.

Um comentário:

  1. Instigante,faz pensar..E se ela fosse mesmo uma medium,somente?Seria um comportamento truculento da familia.Carlo.

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