6 de jul de 2010

RECADO DO ZÉ


Rosario, se foi provocação, valeu. Valeu pelo belo texto publicado aqui no blog sobre o conto de Hans Christian Andersen e até para se ter uma idéia do filme ou da peça de teatro que perdemos quando você decidiu arquivar o projeto de fazer os seus Sapatinhos Vermelhos. Nele, no texto, duas palavras me pegaram: transgressão e limite. Numa associação imediata me lembrei de uma seqüência do filme Dias Selvagens (Days of Being Wild) de Wong Kar-Wai, rodado em 1990 e recentemente lançado em DVD no Brasil. A associação não foi direta com a seqüência, mas com o texto que é lido nela. Nos filmes de Kar-Wai, o sentimento amoroso ocupa sempre o centro das histórias. Não na forma clássica dos filmes sobre o tema (o desenvolvimento das intrigas, atração, sedução e consumação), mas na atenção aos efeitos dos êxtases e tormentos amorosos em seus personagens. São pinturas sobre as variações infinitas e as gradações de intensidade dos estágios do amor em calidoscópio de fragmentos atemporais. Em Dias Selvagens, ambientada nos anos 60, na periferia de uma cidade cheia de sombras e chuvosa, Leslie Cheung (ator fetiche de Kar-Wai que se matou aos 47 anos pulando do 28º andar do Hotel Mandarin Oriental em Hong Kong) é um jovem e preguiçoso sedutor envolvido com três mulheres: a bilheteira do bar de um estádio de futebol (Maggie Cheung), uma cantora (Carina Lau) e uma tia (Rebecca Pan) que o criou. Ele resolve deixá-las e parte para as Filipinas em busca da mãe que o abandonou quando criança. A seqüência que emergiu em minha memória, despertada pelas palavras transgressão e limite no texto que você escreveu, está na primeira parte do filme: Leslie Cheung está deitado em uma cama num quarto desarrumado, uma das amantes (Carina Lau) acaba de sair. A trilha sonora, só o tic-tac de um relógio. Ele está entediado e fuma. Ouve-se uma voz em off (a do próprio Leslie) que começa a narrar uma história. Leslie levanta-se, vai até o aparelho de som, coloca um disco, o bolero latino-americano Muñequita Linda, e, descontraído começa a dançar. O texto que se ouve em off: Dizem que existe um pássaro que não tem pernas. Ele nunca pára de voar. Quando se cansa, dorme no vento. Este pássaro só pousa uma vez na vida. Quando ele morre. Um beijo Rosario.

P pinheiro

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