12 de jul de 2010

O MAR E EU

Me comunico com o além... Entes queridos que já se foram me mandam variadas mensagens em códigos. Perdi minha filha com três aninhos. Nunca pude me recuperar disso. Meus pais, portanto, que eram tudo pra mim, se foram quase juntos há coisa de dois anos. Eram toda a minha família. Fiquei só no mundo, mas sei que não estou sozinha. De onde eles estão se comunicam comigo todo o tempo. Não faço parte de nenhum centro, nem mesmo Kardecista, nem igreja freqüento... A coisa é muito simples: faço perguntas mentalmente e, por exemplo, saio à rua e leio os sinais. Vou atravessar a rua, se o sinal estiver verde a resposta é positiva. Cato papeizinhos pelo caminho, tenho que decifrar o que dizem, mas eles são sempre endereçados a mim. Sei que vivo num mundo a parte, em outro hemisfério. Mas quem se importa? Sou feliz assim... Aqui neste plano não fiz amizades e só suporto minha solidão nesta minha comunicação astral. Só seria mais feliz se Deus me levasse para junto deles. Quero muito isso. Fiz uma pergunta à minha filhinha: se ela gostaria que eu fosse me encontrar com ela. No mesmo instante, a luz do meu abat-jour acendeu. Claro que a resposta era positiva. Mas como fazer? Sei que cometer suicídio vai contra todas as regras da natureza. Deus não perdoaria jamais. Resolvi, então, deixar acontecer: comecei a atravessar as ruas sem olhar para os lados, distraída, ou de olhos fechados, mesmo. Vários carros se desviando de mim, batiam... Eu só ouvia os palavrões. Berravam me chamando de maluca. Doidos eram eles que não podiam compreender essa outra esfera em que eu vivia, coitados. Desisti de provocar acidentes. Não seria dessa forma que conseguiria. Peguei um papelzinho com um nome escrito: Marluce. Aquilo era de uma obviedade absurda – era só separar as sílabas: Mar, de mar mesmo, e luce de luz. Nunca tinha recebido um sinal tão claro antes. Certamente era minha mãe se comunicando, e pedindo para eu ir à praia e me entregar ao mar e à luz. Foi o que fiz: escolhi meu melhor vestido e fui para a praia. A luz era tanta que quase me cegou. Era um belo dia de primavera. Pedi mentalmente que Deus compreendesse aquele meu gesto. Não era um suicídio. Eu simplesmente queria me juntar aos meus. Entrei devagar no mar. Nunca soube nadar. Fui andando até que a água me cobrisse por inteira. Agora finalmente eu seria para sempre feliz. As imagens de minha família iam se alternando em minha cabeça. Já, já eu iria me encontrar com eles. Via lindas luzes, eu e o mar éramos um só. Ainda com as luzes piscando, entrei num túnel, do outro lado, uma luz intensa: reencontrei todos eles. Estava salva. Agora seria finalmente feliz.

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