2 de mai de 2010

CANTO DOS AMIGOS

RUA DAS ACONTECÊNCIAS

Esta rua existe mesmo. Fica no Recreio dos Bandeirantes, quase em frente ao posto 9. É ali que estaciono quando caminho pela praia do Recreio.
O nome da rua é uma homenagem a um livro de Wilma Guimarães Rosa, mas o nome “acontecências” me capturou desde a primeira vez.
Esta acontecência aconteceu hoje quando fui caminhar.
Um catador de papelão e latas, com seu carrinho de mão, que chamávamos de “burro sem rabo”, era seguido por uma borboleta azul, que não vemos mais com tanta facilidade, mas, pela proximidade com o Parque Chico Mendes, ainda existe no Recreio.
A borboleta pairava e esvoaçava em cima de sua cabeça e, de repente, pousou em cima de um monte de jornais velhos no carrinho.
O homem magro, barbado, vestido com uma camiseta de propaganda política de velhas eleições, com uma bermuda feita de uma calça cortada, descalço, parou o que fazia, e gentilmente pegou a borboleta, levando-a para um canteiro de azaléias de uma casa na esquina.
O homem se afastou, e, depois de um microssegundo, a borboleta alçou novamente o vôo e seguiu o catador de papéis e de sonhos.
Ele tentou afastá-la para as flores novamente, mas ela o perseguiu na sua intenção.
Então o homem sorriu, com seu sorriso triste, rosto sofrido, por vezes humilhado, mas com um brilho no olhar na certeza de que tudo é possível, até ser seguido por uma borboleta azul.
O dia ficou melhor para ele e para mim, que pude acompanhar esta acontecência.
Não me esqueço da surpresa e do sorriso que ele deu quando a borboleta abdicou das flores e acompanhou o “não acompanhável”, e voou para quem entenderia a doação de amor deste vôo solitário, pela dureza da vida que tem.
Esta borboleta transformou o dia deste nosso irmão, de um Brasil catador de papelões velhos.
Que misteriosos desígnios do destino fizeram esta borboleta azul tomar tal atitude?
Lembrei-me que hoje é o dia do trabalho, que, para a maioria de nós, é só mais um feriado. Observei que este homem, à margem do trabalho formal, foi o único que teve como seguidora uma borboleta azul, ele que segue e persegue a felicidade por estes caminhos do mundo.
Então, mesmo parecendo pesado, o seu carrinho de papelão ficou mais leve por causa do vôo de uma borboleta.
Tudo isto aconteceu no pequeno pedaço entre a rua das Acontecências, o vão dos meus sonhos e desejos, e os vôos de uma borboleta azul.

João Siqueira

3 comentários:

  1. Nossa, que linda observação do cotidiano. Amei. Muito sensível seu olhar e sua escrita. Estive lá!

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  2. É um texto tão especialmente poético, que nos pega desprevenidos.Parabéns ! Siga em frente,João!BEIJOS ROSARIO

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  3. Adorei este texto, lindo lindo... crítico mas suave, leve, lúdico. Ótima combinação. Parabéns ao autor e a você, Rosario, pelo blog e também por estar abrindo esse espaço para diferentes autores, sejam profissionais ou não, mostrarem suas caras para que nós, leitores, nos deliciemos com modos tão diferentes de se expressar. E também esses escritores se abrem às críticas, palpites, elogios, dicas... numa construção contínua e coletiva. ADORO ISSO!

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