28 de set. de 2010

ZEZÉ MOTTA VEM AÍ!!!

A atriz e cantora Zézé Motta é antes de tudo Maria José Motta de Oliveira, a militante negra, uma das fundadoras e presidente de honra do CIDAN - Centro Brasileiro de Informações e Documentação do Artista Negro, diretora social da SOCINPRO - Sociedade Brasileira de Administração e Proteção de Direitos Intelectuais e, Superintendente da Secretaria Estadual de Igualdade Racial do Estado do Rio de Janeiro - órgão ligado a Secretaria de Direitos Humanos da SEPPIR, vinculado à Presidência da República. Com isso luta, entre outras coisas, pela igualdade racial e ampliação do espaço dos negros no Brasil.

E é exatamente sobre isso que Zézé Motta vem escrever aqui: suas múltiplas experiências como militante e se sobrar algum tempinho ainda nos contar um pouco da artista e da mulher.

27 de set. de 2010

RECADO DO ZÉ

Vaghe stelle dell’Orsa, io non credea                                         
tornare ancor per uso a contemplarvi
sul paterno giardino scintillanti, nidade e revê-lo
e ragionar con voi dalle finestre
di questo albergo ove abitai fanciullo,
e delle gioie mie vidi la fine.(...)
                                            Leopardi, Canti

Rosario,
neste momento em que você se arrisca num projeto literário difícil e perigoso partindo em busca das pessoas, dos cenários e dos acontecimentos que fazem parte de suas lembranças, numa coincidência feliz, está sendo lançado o DVD Vagas Estrelas da Ursa de Luchino Visconti, a menos citada entre as obras-primas do diretor. O tema geral do filme – o tempo e as transformações e mudanças que ele impõe – ecoa também nos textos que você está escrevendo e vale aproveitar esta oportunidade e revê-lo. Visconti atualiza a tragédia Electra de Sófocles em torno de um personagem idealizado para Cláudia Cardinale, Sandra, que, recém casada e acompanhada do marido, retorna à cidade onde nasceu e passou a infância para uma homenagem ao pai, um judeu assassinado num campo de concentração. A cidade é a pequena Volterra, milenar e corroída pelo vento, parada no tempo, mas onde ainda permanecem escombros de construções etruscas, pré-Império Romano. Em casa, o inesperado reencontro com o irmão há muito desaparecido, o irmão com quem compartilhava, secretamente, a intenção de vingar a morte do pai que a mãe de ambos, com a cumplicidade do amante, denunciou aos nazistas. Visconti acompanha com ternura a paixão amorosa que vai se revelando entre os irmãos, deixando o filme fluir com os prelúdios de César FRANCK e citações do poema Le Ricordange dos Cantos de Giacomo Leopardi (1798/1837), cujo primeiro verso dá título ao filme e ao livro de memórias que o personagem Gianni (Jean Sorel), o irmão, escreveu sobre a infância na casa paterna. Não deixe de ver.
P pinheiro

CANTO DOS AMIGOS

MÃOS DADAS


Outro dia, caminhando no Parque da Cidade, vi um casal de idosos, lado a lado, lendo livros, totalmente absortos e, de certa forma, intui que afetivamente estavam de mãos dadas. Um amparava ao outro em todos os sentidos possíveis, compartilhando emoções, estórias e vivências. Persegui com o olhar até que, cortando a cena, vi uma jovem mãe, com seu filho, de calção azul, pedalando uma bicicleta vermelha, começando a aprender a seguir sozinho mas ainda de mãos dadas. Parei e comecei a tentar descobrir, ansioso, também um outro casal de mãos dadas, o que confesso foi demorado. Eram muito jovens deveriam ter lá os seus 21 anos e a mulher estava grávida. Será este o destino das mãos dadas? Quando somos pequenos (princípio), no ápice do amor (meio), e no entardecer do carinho (fim)? Então também as mãos dadas têm o seu ciclo vital, como qualquer outra ser vivente? Que pena, romanticamente eu pensava que talvez as mãos dadas escapassem desta cruel sina da realidade. Mas, para minha paz, encontrei no Drummond a resposta e até imaginei que os idosos estivessem lendo este poema:

Mãos Dadas - Drummond
Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros
Estão taciturnos, mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considere a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história.
Não direi suspiros ao anoitecer, a paisagem vista na janela.
Não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida.
Não fugirei para ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.
João Siqueira

22 de set. de 2010

AQUI SE COME BEM

BACALHAU DE MANAUS

Acabo de chegar de Manaus, terra boa, sem dúvida, onde porém, não apenas os turistas, mas os próprios manauenses usam guarda-sóis. O calor é (literalmente) tropical. Mesmo. Um sol inclemente, o ar sufocante. Para quem gosta de um friozinho como eu, uma tortura medieval.
Mas estou aqui para falar de comida e não de sofrimentos.
A regionalidade se faz tão presente que só encontra paralelo aqui no Brasil com as coisas da nossa Bahia. A culinária é o maior exemplo disso. Nomes exóticos como buriti, camu-camu, jambu, tucumã, farinha de uarini e pimenta de murupi convivem em harmonia com expressões já tradicionais, embora não menos estranhas, como açaí, cupuaçu, tucupi, tacacá e que tais. Curiosamente, outra semelhança com a velha Bahia se repara no atendimento: a presteza do serviço também se assemelha com algo assim: “estreeeessssa naum, meu reeeei, já ta saiiiindu”.
Aprovei sem grandes louvores o pirarucu, o bacalhau de lá e mais enfaticamente o tambaqui, em especial sua costela. O bicho, embora de rio, tem um sabor que lembra o da carne de porco, com mais suavidade. Sua carne é tão agradavelmente gordurosa que daria para pururucá-la com facilidade.
Como estas coisas são difíceis de achar por aqui, estou sugerindo então um “pirarucu” de bacalhau, no forno, com purê de mandioquinha (que me agrada mais que o tucupi) e coalho.
Vamos à receita então:
Descasque um quilo de mandioquinhas e as cozinhe juntamente com outro tanto de bacalhau em água temperada com sal. Depois de tudo cozido, escorra. Reduza imediatamente as mandioquinhas a purê e conserve quente. Enxugue as postas de bacalhau, limpe-as de peles e espinhas e ponha-as dentro de um pano grosso. Esfregue em cima de uma mesa até o bacalhau ficar bem desfiado. Descasque e pique finamente dois dentes de alho e misture-os no purê, acrescido das lasquinhas de bacalhau. Junte um pouquinho de azeite aquecido, aos poucos, mexendo continuamente com uma colher de pau. Junte um copo de leite bem quente, também aos poucos sem parar de mexer para ficar um purê seguro e fofo. Tempere de sal e pimenta. Coloque tudo num pirex untado com manteiga e cubra com lascas de queijo coalho. Leve ao forno aquecido a 190º até alourar. Enfeite com azeitonas verdes sem caroço e sirva quente com uma salada verde. Para ficar com a cara de Manaus, sirva ao lado algumas rodelas de banana frita.
Deve dar para quatro gulosos.

Victor Rodrigues

21 de set. de 2010

SONHOS ROUBADOS

Cheguei de Goiás cedinho sem saber direito o que fazer. Uma coisa era certa, havia realizado o que me propusera: vir conhecer o Rio, que só vira por fotos e filmes. Me chamo Andrea e trabalhei toda a minha vida numa fábrica de botões. Ninguém pode imaginar como isso pode ser monótono e mecânico.
Sou uma pessoa sem história. É isso mesmo, não tenho nada de especial para contar, a não ser essa minha paixão enlouquecida pela cidade.
Assim que recebi minha aposentadoria e os outros benefícios, pensei: pronto! Agora vai se tornar realidade! Vou conhecer o Rio e quem sabe talvez, realizar até meu sonho de ir lá morar. Nada me prendia à Anápolis, meus velhos já eram falecidos, nunca me casara... filhos. Nada.
Foi assim que tomei meu ônibus para vir pra cá. Sabia que iria chegar numa parte feia da cidade, por isso contratei uma excursão para conhecer todo o Rio: floresta da Tijuca, Jardim Botânico, Alto da Boa Vista, Copacabana, Ipanema, Leblon, tudo... Até a Niterói eu fui porque sabia que era muito bela e podia-se vislumbrar o Rio de lá, inteirinho. Eu não me continha em ver tanta beleza. Essa cidade em maio... Não sei nos outros meses, mas em maio a luz aqui é lindíssima. Ademais, não faz frio nem calor. É perfeito. Devem estar me achando uma interiorana burra e deslumbrada. E eu sou mesmo. Mas não me importa, a vida não me deu muitas oportunidades de crescer, de ser alguém, e é verdade, devo confessar: eu nunca batalhei muito por isso. Fui me acostumando, me encostando e fiquei que nem planta sem luz: pequena, feia, sem viço ou seiva. Seca. Por isso, talvez, nenhum homem tenha se interessado por mim.
Chega! Chega de lamúrias, vou olhar a paisagem e beber do belo. Estávamos num ponto do Leblon que era deslumbrante, mais um pouco e subiríamos para São Conrado. Fiz sinal ao motorista indicando que queria descer. Eu só trazia comigo uma maleta de mãos, por isso ia ser fácil me locomover sozinha. Desci e sentei-me num banquinho para de lá ficar olhando o mar. Que imensidão, meu Deus! Depois fui devagarzinho caminhando até o final daquela praia.
Não sei como aconteceu. Subitamente, pessoas começaram a correr em todas as direções, fiquei parada sem entender nada. Não consegui reagir. Morta de medo. Quando olhei para o lado um menininho pequeno puxou uma navalha e veio em minha direção:
_ Pode passar tudo isso, tia. Vai passando e não me olha.
Agarrei com força minha maleta: tudo o que eu tinha, inclusive o dinheiro, estava guardado ali. Fiz menção de me virar para fugir. Nada feito. Me vi cercada por todos os lados. Crianças armadas de revólveres e canivetes. Tremia. Tremia tanto que deixei cair a maleta. Era o que estavam esperando. Agarraram minha maletinha e correram, correram tão rápido que quando pisquei estava tudo acabado.
Por que não escondera o dinheiro? Eu era matuta mesmo, uma boba. Que ódio tive de mim. Fiquei sem reação. Agora estava tudo perdido. Todos os meus sonhos foram embora. Desceram pelo ralo. É muito triste constatar que toda a sua vida se foi como num passe de mágica.
Sentei novamente no banquinho e chorei. Chorei de soluçar alto. Não sabia o que fazer. Chorei tanto que até um senhor aproximou-se de mim oferecendo sua ajuda. É. Ainda existe gente boa por aí...
Chorava e pensava: e agora? Meu sonho acabou... Fui andando pela areia ainda quente em direção ao mar. Só o vira de longe. Que força, que magnetismo. Que beleza! Ele parece nos atrair que nem imã. Senti-me completamente entregue. Nunca vira nada tão belo... Divisava o horizonte ao longe. Entrei na água. Fui andando até perder o pé. A lua já se insinuava a céu aberto, desabrida e voluptuosa. Fui andando até nos tornarmos uma coisa só: o mar e eu.

13 de set. de 2010

AMOR AOS 60

Os gestos são agora comedidos. As distâncias respeitadas. A privacidade de um e do outro, um bem com o qual não se brinca. Já não ateamos fogo às vestes por um atraso ou telefonema que se esperou e não veio. É assim. Não sofremos mais por qualquer coisa. Nem o coração bate disparado quando a campainha toca, no máximo ficamos inquietos.
É assim, mas eu juro que é bom. A serenidade veio para ficar. Assim como com nossa maturidade conseguimos enxergar o outro e respeitá-lo com suas qualidades e defeitos. Preferimos ficar a sós muitas vezes e o outro também. Aprendemos a curtir a nossa companhia assim como a companhia do outro. Aliais, só porque aprendemos a gostar da nossa solidão, podemos apreciar o outro em sua totalidade.
Já não somos crianças, há muito a adolescência se foi. Tivemos 30 e agora são mais 30. Todas essas épocas se bem vividas é que tornam os 60 anos uma idade radiosa. Vocês devem estar pensando: radiosa?! Ela deve estar maluca. Radiosa sim, ou vocês pensam que perdemos o tesão?! O tesão no outro e pelas coisas da vida.
Eu adoro me arrumar e ficar bonita pra quem me ame, ou mesmo que não, adoro ficar atraente pra mim. E me acho ainda bonita, sim. Sei que poderia dar uma “puxadinha” aqui, um botox acolá. Mas isso já não me deixa doente. Eu me aceito com minhas rugas e os cabelos brancos que teimam em aparecer de 15 em 15 dias. Nisso a moda não nos poupou. Em sua ditadura. Porque releva a barriguinha e os cabelos brancos dos homens, assim como a gordura? E nos quer sílfides, de cabelos sempre retocados.
Vocês querem ver como os 60 são legais? Essa ditadura conosco não é tão rigorosa assim. Ou eu pelo menos não me cobro esse rigor, além de achar lindo mulheres que assumem seus cabelos brancos.
Não sei se consegui explicar o amor aos 60. É difícil, quase impossível falar de amor generalizando. Escrevi o que sinto e como vejo o que vivo.
Uma última consideração, e essa bastante minha: não suportaria mais, dividir o mesmo quarto com ninguém. Perto, próximo, ótimo. Por uns dias, ok. Mas para sempre, não mais. Eu gosto demais da minha companhia e de dormir com meus cachorrinhos.

NOTA SOBRE "AQUI SE COME BEM"

O nosso querido chef Victor Nuno tem mesmo nos deixado chupando dedos, mas promete voltar essa semana de Manaus com receitas surpreendentes...