13 de set. de 2010

AMOR AOS 60

Os gestos são agora comedidos. As distâncias respeitadas. A privacidade de um e do outro, um bem com o qual não se brinca. Já não ateamos fogo às vestes por um atraso ou telefonema que se esperou e não veio. É assim. Não sofremos mais por qualquer coisa. Nem o coração bate disparado quando a campainha toca, no máximo ficamos inquietos.
É assim, mas eu juro que é bom. A serenidade veio para ficar. Assim como com nossa maturidade conseguimos enxergar o outro e respeitá-lo com suas qualidades e defeitos. Preferimos ficar a sós muitas vezes e o outro também. Aprendemos a curtir a nossa companhia assim como a companhia do outro. Aliais, só porque aprendemos a gostar da nossa solidão, podemos apreciar o outro em sua totalidade.
Já não somos crianças, há muito a adolescência se foi. Tivemos 30 e agora são mais 30. Todas essas épocas se bem vividas é que tornam os 60 anos uma idade radiosa. Vocês devem estar pensando: radiosa?! Ela deve estar maluca. Radiosa sim, ou vocês pensam que perdemos o tesão?! O tesão no outro e pelas coisas da vida.
Eu adoro me arrumar e ficar bonita pra quem me ame, ou mesmo que não, adoro ficar atraente pra mim. E me acho ainda bonita, sim. Sei que poderia dar uma “puxadinha” aqui, um botox acolá. Mas isso já não me deixa doente. Eu me aceito com minhas rugas e os cabelos brancos que teimam em aparecer de 15 em 15 dias. Nisso a moda não nos poupou. Em sua ditadura. Porque releva a barriguinha e os cabelos brancos dos homens, assim como a gordura? E nos quer sílfides, de cabelos sempre retocados.
Vocês querem ver como os 60 são legais? Essa ditadura conosco não é tão rigorosa assim. Ou eu pelo menos não me cobro esse rigor, além de achar lindo mulheres que assumem seus cabelos brancos.
Não sei se consegui explicar o amor aos 60. É difícil, quase impossível falar de amor generalizando. Escrevi o que sinto e como vejo o que vivo.
Uma última consideração, e essa bastante minha: não suportaria mais, dividir o mesmo quarto com ninguém. Perto, próximo, ótimo. Por uns dias, ok. Mas para sempre, não mais. Eu gosto demais da minha companhia e de dormir com meus cachorrinhos.

NOTA SOBRE "AQUI SE COME BEM"

O nosso querido chef Victor Nuno tem mesmo nos deixado chupando dedos, mas promete voltar essa semana de Manaus com receitas surpreendentes...

NOTA SOBRE "RECADO DO ZÉ"

Gente, o Zé Antônio não sumiu à toa. Ele está prepando um vasto material pra gente. Aguardem!!!!

NASCI PARA BAILAR

Esse conto é parte de um roteiro que deveria ter sido filmado, mas por questões burocráticas-financeiras brasileiras não saiu. O roteiro é uma adaptação que fiz baseada no célebre conto de Hans Christian Andersen, Os Sapatinhos Vermelhos.

João, vulgo Jana, seu nome de guerra, veio de Pernambuco, com vinte e poucos anos, tentar a sorte no Sul Maravilha. Homossexual assumido, em Pernambuco se virava como cabeleireiro, costurando, enfim, fazia de um tudo.
Muito cedo, fora expulso de casa, graças às suas preferências sexuais. Com um pai machista e uma mãe passiva, nunca teve um lar. Nunca se sentiu pertencendo a algo ou alguém. Alimentou anos a fio a fantasia de que alcançaria dinheiro, glória e sucesso quando se mudasse para o Rio, onde poderia exercer finalmente suas preferências sexuais, sem cerceamentos ou disfarces. Assim que conseguiu juntar um pé de meia suficiente para a mudança, "pegou um Ita no Norte e veio no Rio morar".
Aqui chegando, sem conhecer nada nem ninguém, com os poucos trocados que economizava, vagou de rua em rua, de hotéis baratos a miseráveis. Ouvira falar que era na Cinelândia que as coisas aconteciam. Que homossexuais como ele gozavam de liberdade, podiam se exercer por completo. Como sempre fora seu sonho trabalhar em teatros como figurinista e/ou cenógrafo, por lá aportou em busca de trabalho. Como seu dinheiro acabara, dormia nos bancos de praça enquanto batia de porta em porta à procura de emprego. Qualquer coisa servia desde que o permitisse estar perto do mundo do show business. Finalmente conseguiu trabalho no almoxarifado de um teatro por ali. Sentiu-se imediatamente aceito, encontrara seu mundo. Como não era uma pessoa com grandes ambições e se sentisse extremamente carente de afeto e acolhida, conformou-se nesse trabalho subalterno, por ali se sentir amado e estar entre iguais.
Mais importante que tudo, era necessário se sentia útil, era “Jana” pra cá, “Jana” pra lá, o dia todo e parte das noites, também.
Isso o preenchia e o enchia de orgulho.
Mas João, ou Jana, não era um ser sexualizado, muito menos promíscuo, talvez pela educação rígida e repressora de casa.
Suas fantasias eram de amor, de um amor profundo. De se entregar intensamente a alguém e vice-versa. Logo, logo percebeu que ao menos ali, isso não seria fácil. Todos os romances eram levianos e passageiros. Cansou-se rapidamente desse vai e vem e conformou-se à própria solidão.
Então, quando a noite caía, quando cessavam a música e os risos dentro do teatro, se recolhia ao seu quartinho, onde montara um gongá com seus santos de cabeça. Fazia ali suas obrigações ou lia romances melosos de M. Delly.
João era dono de um humor fino, sagaz. Não era mau, mas não resistia à ironia, à mordacidade. Isso o preocupava.
Sabia-se envelhecendo e temia acabar seus dias solitariamente, tendo como único prazer a crítica ferina, comprazer-se ridicularizando a tudo e a todos de forma destrutiva. Sabia que dessa forma acabaria aniquilando a si mesmo.
Foi quando uma madrugada ouviu, perto de seu quarto, um choro de bebê.
Acordou com esse choro. Pensou estar sonhando. Tentou dormir novamente, mas o choro persistia. Levantou-se, vestiu-se e saiu do teatro, caminhou em direção ao som.
Descobriu no chão, entre um carro e outro, uma cestinha, dentro dela, um bebê urrava provavelmente de fome. Foi extasiado que João tirou a mantinha que o envolvia.
Pegando o bebê no colo, de forma desajeitada, checou milímetro por milímetro, se ele nada sofrera. Mais extasiado ficou ao descobrir uma menina linda, vestida de forma pobrinha, mas que envergava reluzentes sapatinhos vermelhos; emocionantes sapatinhos vermelhos que se chocavam com a forma que fora vestida.
João enxergou naqueles sapatinhos, um sinal.
Aquela criança tinha nascido pra brilhar. Ela não seria mais alguém na multidão. Era uma predestinada.
João sentiu-se de certa forma vingado. Aquele bebê, um dia, realizaria todos os sonhos que ele tecera a respeito de si próprio.
Sua vida jamais seria a mesma.

8 de set. de 2010

TIM TIM!

Me chamo Cristal, quer dizer, isto foi um apelido que deram. Meu verdadeiro nome é Cristiane. Vim de uma família de lavradores do Sul. Pequenos lavradores. Minha família era pobre, mas tinha dignidade e honestidade... todos esses princípios morais que hoje não se usa mais. Todos dizem que sou bonita e deveria ter virado modelo, manequim como tantas outras moças lá do Sul. Mas a vida da gente nos reserva tantas surpresas! Conheci Alfredo ainda garotinha, numa festa em Blumenau onde ele tinha ido a passeio. Eu era quase uma menina. Ele se apaixonou por mim e foi conversar com meu pai, dizendo quem era e que suas intenções eram sérias. Pretendia se casar comigo, se papai não se opusesse. Papai vislumbrando uma vida melhor pra mim, concordou. Eu vislumbrando o Sul maravilha, topei. Mal sabia o que me esperava...
Minha profissão foi cuidar do Alfredo. Por vinte anos me dediquei a ele, agüentando seu mau-humor, suas grosserias e engolindo tudo, sem brigar. Sei lá, de alguma forma acho que eu lhe era grata por me dar uma casa, me feito ser sua mulher legítima. São coisas que eu prezo e de mais a mais essa foi minha formação: ser honesta e íntegra foi o que meu pai me ensinou.
Sofri muito esse tempo todo, chorava sozinha em meu quarto. Apesar disso não me deixei parar no tempo. Estudei muito, li à beça e fiz inúmeros cursos. Sempre fui ligada, Alfredo era tão ciumento que eu tinha que ter as aulas em casa, embora isso custasse o dobro. Ele não se importava porque estava milionário. Tinha uma banca de advocacia, quem conhece esses profissionais sabe do que estou falando. Mas foi correto comigo, como não tinha herdeiros, deixou tudo pra mim.
Quando ele morreu correu o inventário. Sem opositores, logo eu estava milionária. E me vi, da noite pro dia, sem saber o que fazer dessa fortuna toda. Logo, logo chegaram os “amigos”do Alfredo para me ensinar o que fazer do dinheiro. Posso ser interiorana, mas não sou burra. Nunca fui tão paquerada em toda a minha vida. Espertalhões, conheço essa laia toda. Através do Alfredo eu aprendi advocacia. Ha-ha.
Consultei a única pessoa no mundo que eu tinha confiança: papai. Ele me pediu um tempo pois iria falar com seu gerente e logo me daria resposta. Papai pode ser bronco, ter passado a vida com a mão na terra, mas é muito inteligente e sábio, coisa que hoje é matéria rara. Seu gerente logo abriu uma conta em meu nome na Espanha e me aconselhou a só gastar os juros, que mesmo eu morando fora daria pra viver super bem. Pensei em Madrid porque conhecia de cor seus quadros, seu cinema, e adorava sua música. Entre os cursos que fiz um foi aula de canto. E se eu podia escolher, por que não Madrid? De noite acordava sonhando, me via cantando em boites pequenas música brasileira.
Deus meu, eu agora era livre e sabia o quanto isso havia me custado. Depositei um bom dinheiro na conta da minha família que eram as únicas pessoas a quem eu era ligada. Tudo para mim será novo. Vou olhar as coisas como se fosse pela primeira vez, porque de fato é assim.
Eu não tive adolescência, mal tive infância trabalhando na lavoura. Meu casamento com Alfredo foi quase uma escravatura. Não. Foi uma escravidão de fato.
Pisarei no chão como os primeiros astronautas pisaram na Lua. Dá até medo. Será uma emoção após a outra. Tenho chorado muito, não sei se de felicidade ou tristeza. É tudo isso misturado. Agora de fato começarei a viver.
Quando estiver a bordo da primeira classe super luxo de um jato qualquer, eu que nunca saí do Sul ou do Rio, tomando meu champagne pra lá de merecido, lembrarei e hei de conseguir rir muito, pensando como o destino as vezes pode ser sábio, nas voltas que o mundo dá.
Peguei outro dia entre meus guardados essas anotações: Sem olhar para trás ir para uma cidade estrangeira de preferência onde não se conheça a língua. Me perder entre desconhecidos que amigos se tornarão.Sentir a angústia do não existir, existindo. Farei tudo minuciosamente ser mais uma na multidão e adquirir uma nova “persona”. Mas o melhor de tudo será abandonar o meu antigo eu, minha casa e tudo que vivi até então. Poder recomeçar do zero.
Afinal isso foi por mim sonhado tantas vezes, cada briga que tinha com Alfredo eu engolia os desaforos ouvidos, sabendo que um dia isto teria um fim.
Esse dia chegou finalmente: Movida madrileña, estoy a camiño! Sempre fui louca por Almodóvar! Tim, tim!

6 de set. de 2010

CANTO DOS AMIGOS

Soninha Toda Pura

Hoje, depois de mais de treze anos sumida, reencontrei Soninha.
Caminhava na Praia do Recreio com o seu filho, que aparentava onze anos.
Continuava bonita como eu me lembrava.
Ao seu lado o marido, um belo garotão tatuado, com uma prancha de surf e uma bicicleta, queimado por um Sol como ainda não se viu nestes meses no Rio.
Foi um belo e emocionante reencontro e ela me disse o que faz atualmente: É secretária executiva no Projac da Globo.
Conheci Soninha na década de 90, quando parávamos no mesmo estacionamento na cidade, ali na Av. Visconde de Inhaúma.
Eu tinha um Chevette e Soninha um Escort Sport do ano, super equipado, com a intrigante placa EDU 1945. Ela era atendente de caixa no antigo Bamerindus, que virou depois o HSBC e certamente pelo salário, escolaridade, e perfil familiar nunca poderia bancar tal extravagância. Ficamos realmente amigos, de dar carona um para o outro, quando nossos carros iam para revisão ou algum imprevisto surgia, tal como Soninha ficar sem dinheiro para a gasolina.
Não resisti a curiosidade e quis saber qual era a mágica para bancar tal carro e Soninha, toda pura, me contou seu segredo de polichinelo.
Eduardo (O Edu da placa), tinha se apaixonado por ela, apesar dos 25 anos de diferença de idade. Soninha, com toda sinceridade dos seus 22 anos me disse:
-“João, imagine você que só com o segundo grau incompleto, morando numa casa com meus pais, na Curicica, perto do Rio Centro, trabalhando como bancária, se eu tenho condição de bancar esta vida, este carro, minhas saídas, minhas roupas e tudo mais?”
-“Resolvi ser prática e namoro um empresário que é apaixonado por mim e resolvi ser a “Alfa2”. Aqui explico: Na época existia uma novela na TV que o personagem principal tinha a esposa (Alfa1) e a outra (Alfa2). Soninha disse isto rindo e explicou:
-“O Edu não sabe que ele é o Beta 1, pois tenho também o Beta2 e Beta 3!”
-“Não vejo nada de errado, pois sei que tudo é passageiro, mas enquanto isto, faço o que quero fazer e até ajudo minha família”. E contou-me uma estória interessante acontecida no Dia dos Namorados. Do Beta 3 ganhou um CD ,que repassou para o Beta2. Do Beta 2 ganhou um “Liebfraumilk”, insuportável vinho alemão doce (garrafa azul), muito popular na época, que repassou a Beta 1(Eduardo). De Beta 1 ganhou um anel com um pequeno brilhante que não repassou a ninguém. Todos ficaram felizes.
Todos comeram Soninha, (especialmente Beta 3 que nada ganhou, pois Soninha explicou que estava dura) e assim ela ia administrando sua micro empresa – Soninha Ilimitada!
A capacidade criativa e a logística de Soninha eram impressionantes, assim como o interior de seu carro que tinha roupas de ginástica, sapatos, mochilas, maquiagem e vestidos estrategicamente deixados na mala. Assim ela vivia a vida, pura, simples e feliz, sem conseguir ver nada de errado ou mau no que fazia. Alfa1 finalmente comprou um pequeno apartamento em Vila Valqueire para Soninha e aí, pela primeira vez minha amiga baqueou. O fantasma da liberdade perdida começou a incomodar e o desejo de Eduardo ter um filho e mudar de mala e cuia para o apartamento de Soninha, começou a deixá-la triste e sem vontade de continuar a viver daquele jeito.
A gota dágua aconteceu no dia que Eduardo, numa das inúmeras viagens da sua esposa, a levou para conhecer seu apartamento no Leblon e Soninha constatou que o seu apartamento em Valqueire era uma xerox mal feita daquele da zona sul, apesar de ter os mesmos horríveis móveis da Lacca na tonalidade vinho. Estranhei sua ausência no banco, na cidade, no estacionamento e uma semana depois me ligou e disse:
-“Repensei tudo, sai do banco, acabei com os três, devolvi a porra do apartamento de Valqueire, voltei a estudar e estou trabalhando como auxiliar de escritório numa empresa de publicidade.
-“Não dava mais para viver daquele jeito, quero mais para mim, quero escolher o que faço, o que compro, o que desejo.”
Ainda nos encontramos mais algumas vezes durante aquele ano e soube que iria tentar vestibular no ano seguinte. Passaram-se treze anos e fiquei feliz pelo reencontro.
O filho de Soninha (que por acaso se chama Eduardo) é do surfista, que é dono de uma loja de roupas esportivas. Soninha sorriu e me disse na encolha:
-“Imagina se meu marido soubesse daquela Soninha!”
Para mim, Soninha foi e é “A Soninha Toda Pura”, pois a coragem da mudança e sua força, assim o demonstraram. Longa e próspera vida Soninha e um beijo deste teu amigo.

João Siqueira
RUA DA MATRIZ – o pouco que consigo me lembrar

Para Anna Maria Assis

Me vejo em sonho. Brumas de antigamente. Estou sentadinha, ainda bem criança na escada de pedra que levava para o jardim de inverno, na casa do papai. Tudo o que restou dessa casa onde passei minha infância e adolescência foram escombros. Ninguém consegue construir no local. As energias que pairam por este local mágico são fortíssimas. As pessoas ainda não compreenderam isso.
A minha presença, assim como a da minha família, ainda deve estar muito intensa ali. Afinal, bela parte de minha vida passei ou pendurada na mangueira ou namorando no portão. Aquela mangueira, devem ter arrancado e feito dela pedacinhos, pois se esquecem que a natureza tem consciência, a gente pensa que não, mas tem vida própria e ela se vinga.
Tudo em nome do vil metal. E é a tal história, todo mundo é culpado, mas ninguém assume sua parcela. Estamos todos aí empurrando tudo com a barriga. Volto aos meus sonhos de antigamente e me vejo ainda criança brincando na rua (na época eram raros os carros, pelo menos não passavam por ali) brincadeiras de outrora. Duvido que alguma criança hoje conheça qualquer uma delas.
As crianças hoje já nascem informatizadas. Morro de pena. Não tiveram infância. Nunca brincaram de baleado, chicote queimado, amarelinha (atingir o céu...) e por aí afora. Meu Deus, eu era feliz e não sabia.
Da mangueira ao portão foi um pulo. Explicando melhor: de garota levada a uma quase adolescente que namorava no portão, não me lembro ter se passado muito tempo. Creio até que eu fazia as duas coisas simultaneamente. Ou minhas recordações assim o querem... Meu Deus, que época boa!
Época de família com filhos numerosos, que cresciam soltos brincando na rua. Tempo em que os garotos de “família” se irmanavam com aqueles dos morros. Quando a favela era pacífica e podia-se mesmo brincar por ali!
A bruma desce novamente e tolda minha lembrança... Estou novamente aqui e agora, na era cibernética em 2010, nesta cidade violenta. Seria bom viver só de lembranças... Queria tanto continuar sonhando... Acho que é por isso que escrevo...